Quando a democracia é boa

Sou um defensor da monarquia. Em todas as discussões políticas quando algum amigo pergunta meus posicionamentos políticos, defendo (e defenderei sempre!) a monarquia como a melhor saída para todos os problemas. A única condição que coloco é que eu seja o Rei. Mas não um rei qualquer. Um Rei com “R” maiúsculo, daqueles que precisam do tapete vermelho para entrar no castelo.

Porém, enquanto este sonhado dia não chega, vamos convivendo com a democracia, o melhor regime para que os desiguais sejam ouvidos e os iguais, em maioria, tenham suas decisões respeitadas. Viver em democracia é como viver em uma ilha em que existem poucos moradores e a tomada de decisão sobre qualquer tema deve respeitar o pensamento individual de cada um. Isto é tentar ser democrático, ou seja, se exercitar diariamente (com poucas ou muitas pessoas) para chegar a um consenso sobre certos temas. Em alguns casos, o processo decisório vale mais do que os resultados esperados; em outros, valoriza-se mais os lucros do que o modus operandi.

Perceba que em qualquer situação a democracia deixará alguém perdendo. Não é o melhor regime para contemplar todos os interesses. Pode, ainda, soar como uma “tirania da minoria”, no maior estilo Tocqueville. O que não pode, em uma democracia, é deixar que todos tenham voz e vez. Se seu projeto foi ou não o vencedor, contente-se com o lugar em que você está: é melhor ser ouvido e, mediante uma ação política, ter seus desejos respeitados, do que sobreviver em meu regime monárquico…

Faltam lições de democracia para os eleitores brasileiros. Não somente eu. Alguns amigos partilham a ideia* de que o eleitor se comporta politicamente como um torcedor em uma partida de futebol. Ainda não alcançamos a maturidade política necessária para saber vencer e saber perder.

Os casos da facada no atual Presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) e da renúncia ontem (24/01/2019) do próximo mandato como Deputado Federal de Jean Wyllys (PSOL-RJ) mostram um pouco da falta de tolerância que estamos atravessando na atual fase “democrática” do Brasil. Há mais torcedores dizendo que “nossa, ele poderia ter morrido” e “já vai tarde” do que cidadãos preocupados em preservar a natureza democrática.

Note que nas duas ocasiões poucos cidadãos pensaram sobre a salvaguarda da pluralidade de ideias, sobre a valorização do debate,  sobre a multiplicidade de opiniões. A democracia não sobreviverá sem estes ingredientes. A democracia não sobreviverá sem a percepção de que nem todo dia vencemos, mas em alguns deles também perdemos. O que está em jogo, definitivamente, não é vencer ou perder, mas aprimorar o debate político no Brasil.

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* Rafael Egidio no livro “Política Brasileira: como entender o funcionamento do Brasil” (Editora Sahar, 2015) tem um artigo sobre este tema e há dois dias Ronaldo Nezo citou algo similar em seu blog (https://ronaldonezo.com/2019/01/23/na-politica-eleitor-nao-pode-agir-como-torcedor/)

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Por quê Luciano Huck incomoda tanto?

“Porque ele é o candidato à Presidência da República da Rede Globo de Televisão”. Mais do que uma simples afirmação, dotada de posicionamento político evidente, é preciso avaliar os motivos pelos quais um apresentador de televisão tem gerado tantas discussões na internet por ser cogitado a disputar uma vaga para ser candidato à Presidência da República em outubro próximo.

Longe do pioneirismo na disputa eleitoral, a categoria “apresentadores de televisão” sempre chamou a atenção do campo da política – e não é de hoje. Prova viva, Celso Russomanno (PRB-SP) é Deputado Federal pelo quinto mandato, sendo inclusive candidato à Prefeitura do maior município brasileiro. Outros nomes despontaram no eixo mídia-política, como Tiririca (PR-SP) e seus milhões de votos legislativos. Silvio Santos, do SBT, foi candidato por um curto período em 1989. Sem falar nos inúmeros casos nas Câmara Municipais e Prefeituras do Brasil.

Entretanto, a envergadura da disputa presidencial requer maiores cuidados e, boa parte do eleitorado tem rejeitado veementemente a candidatura de Huck. Ao contrário de outros pré-candidatos, o primeiro aspecto a ser destacado é o próprio conhecimento da vida pública do apresentador, bem como suas intenções. Formado em Direito pela USP, em um dos cursos mais tradicionais do país, oriundo de uma família de classe média-alta paulistana, fez carreira em agências de publicidade antes de se tornar conhecido na televisão. Na Band e, desde 2000 na Rede Globo, a especialidade de Huck é comunicar com entretenimento, com uma dose de questões sociais em seus quadros, que tem como alvo mexer com a emoção das pessoas. Casado com a também apresentadora Angélica, o casal é um dos mais queridos do público, dominando as tardes de sábado da Globo.

Ou seja, a biografia de Huck, enquanto trajetória social, reflete seu propósito: um integrante de família abastada da tradicional elite paulistana, apresentando há anos um semanário de entretenimento, com a facilidade de conversar com as pessoas pelo meio de comunicação mais universal do Brasil: a televisão. Das 67 milhões de residências no Brasil, 65 milhões tem pelo menos um aparelho de televisão. Este número é inclusive maior que o de geladeiras. Considerando a supremacia da audiência da Globo no país, que domina as telenovelas e a transmissão do futebol, esporte mais popular do Brasil, a política parece ser mais uma “diversificação de negócios” do grupo Marinho.

A sirene de alerta foi acendida quando os principais analistas políticos do Brasil enxergam um caminho para o crescimento de uma candidatura “de centro” no espectro eleitoral, polarizado atualmente por Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). Huck poderia ocupar esta lacuna: adiantadamente é uma figura conhecida (só perde neste quesito para o ex-Presidente Lula), tem a audiência semanal e facilmente “entra na casa das pessoas”, dificuldade que os demais candidatos enfrentam – disputando a atenção dos eleitores, sobretudo, na internet. Por outro lado, Luciano seria uma espécie de “outsider”, o que não partilha do cotidiano da política, algo que poderá ser relevante no pleito vindouro.

O discurso de ódio contra a candidatura de Luciano Huck nada acrescenta no debate político. Dizer tudo o que já sabemos sobre ele é enfatizar um enredo conhecido há mais de 20 anos e que terá as consequências outrora esperadas. Tentar barrar a candidatura de um cidadão me parece pouco democrático, virtude esta levantada por todos os demais postulantes e seus respectivos simpatizantes. Conviver, apontando as diferenças entre os “presidenciáveis” talvez seja a melhor saída. A lata velha da política brasileira precisará dialogar com o potencial de Luciano Huck.