5 fatores para uma campanha política bem sucedida na internet: a pessoalidade

corpo a corpo com eleitores collorA série da “5 fatores para uma campanha política bem sucedida na internet” inicia-se hoje com tópicos relacionados ao universo da política, pretendendo falar diretamente com candidatos, políticos em pleno o exercício dos mandatos ou interessados no tema. Não vamos falar sobre a importância doo uso da internet na política. Isto parece-me que todos já visualizam como um caminho sem volta. Assim, nosso objetivo é debater temas relevantes, que às vezes são esquecidos, mas que fazem toda a diferença.

Iniciamos com um tema que parece óbvio, mas pouco explorado pelas equipes dos candidatos/políticos em geral: a pessoalidade na internet. O contato direto com o eleitor (corpo a corpo) é uma das principais ferramentas no processo de conquista do voto. Não há um especialista em eleições sequer que deixa de citar o “corpo a corpo” como uma das formas mais eficazes de obtenção do voto. E, aí, quando vamos para a internet, este contato parece que se perde. O mundo virtual soa distante do mundo real. A conectividade na palma das mãos e na ponta dos dedos por uma ferramenta de comunicação (celular, computador, tablet) nos “afasta” das pessoas. O chamado “senso comum crítico” condena a conectividade em excesso.

Esta série de juízos de valor sobre o uso de celulares e tablets o tempo todo poderia inibir a utilização “full time” destes aparelhos. Um engano. A conectividade dos brasileiros cresce a cada dia e, pelo menos a metade da população nacional tem acesso à internet. E aí, o político, com sua desgastada imagem perante à sociedade, transforma o palanque virtual em extensão do palanque real. São diversos os casos em que as redes sociais dos políticos e dos candidatos apenas replicam as atividades rotineiras, falando sério o tempo todo e sem interatividade com o seu público-alvo.

Insisto na ideia de que a política na internet deve sim falar de acordo com o perfil de cada eleitorado. Comunicar com eficácia e objetividade parece algo com mais impacto. Sim, um político deve expor as atividades do mandato. Mas existem meios e formas para isso. O tempo presente nos demonstra que a pessoalidade não pode ser perdida. Momentos com a família, fotos em passeios, selfies e fotos com boa qualidade em plena atividade política tem mais impacto que um link direto para o site do político. O eleitorado quer saber o que o político faz nas horas vagas e, durante o período de trabalho, o que ele faz de diferente pra ser um político diferente e receber seu voto. Esqueça as pompas de antigamente: a simplicidade na comunicação virtual de hoje ganha espaço e, a figura do “político super homem” foi substituída pelo Chaves da vila. Afinal, qualquer pessoa tem em mãos um celular para fotografar o político em um ângulo desfavorável…

Valorize a pessoalidade. Saiba que a internet apesar de virtual é a extensão do mundo real. E o tempo que as pessoas passam virtualmente é muito grande. Conquistar o voto é falar com várias pessoas ao mesmo tempo e, nada melhor que uma ferramenta como a internet para fazer isto rapidamente. A vida pessoal se confunde e se torna pública com a política. Portanto, saiba controlar sua pessoalidade-pública, expondo aquilo que te interessa e sempre fazendo as seguintes perguntas antes de postar algo:

1- haverá uma identificação com meu eleitor quando ele ver isso, isto é, as pessoas em geral fazem o que estou fazendo?

2- a imagem valoriza a minha imagem, ou seja, eu apareço na foto/vídeo e todos podem me identificar em uma situação positiva?

3- atingirei o objetivo de tornar pessoal, isto é, levar ao mundo virtual algo necessariamente do mundo real? E mais: o eleitor conseguirá ver isso ai acessar a minha postagem?

Pessoalidade, como demonstramos, ainda é tudo. Lembre-se do processo de identificação, uma carta na manga para vencer as eleições. Estas são pequenas dicas do primeiro texto de nossa série. Semana que vem nosso texto será sobre o uso do vídeo nas redes sociais.

Os preconceitos quando se tem um ideal

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Refleti esses dias sobre a natureza humana quanto à busca de um ideal. Não estou enveredando pela filosofia, pelo contrário, apenas tento ser franco nas palavras sobre um assunto que vagou pelos meus pensamentos nas últimas semanas: os preconceitos que as pessoas tem quando você busca idealizar um projeto, algo presente na menor parcela da população nos dias de hoje. Pode parecer estranho, mas isto acontece com frequência. Nossos exemplos vão ajudar a entender o que proponho.

Experimente buscar uma curso fora da sua cidade – principalmente se este curso estiver em um nível mais avançado ou se relacionar diretamente com a sua profissão. A pergunta, generalista por sinal, é a seguinte: “mas é a sua empresa que está custeando as despesas né?” ou então: “mas nada disso tá saindo do seu bolso né?”. A frustração vem quando a resposta para estas perguntas-afirmações são negativas. E esta frustração ocorre justamente porque preservamos o conforto do lar: é mais fácil ficar em casa do que buscar o conhecimento fora. Afinal, o esforço cansa, o tempo urge e a sapucaí é grande. Nossa “zona de conforto” fala mais alto.

Experimente também propor a criação de algo inusitado, engenhoso e trabalhoso. Muitos vão afirmar veementemente que nada vai dar certo, que o projeto é muito grande para o tamanho da sua realidade ou que as pessoas não estão preparadas para lidar com o novo. A injeção de desmotivação é grande. A de inveja também. E nada acontece se não tirarmos do papel aquela boa ideia engavetada. Mais uma vez a “zona de conforto” volta a imperar.

Mas, será que estamos em um estado permanente de conforto? Em partes. Todos tem seus confortos, suas taras e manias. O ideal para alguns fala mais alto do que o conforto. Para a maioria não. A mensagem pode ser de motivação neste curto texto, entretanto apenas afirmo que é preciso sempre olhar o balanço da sociedade, como ela caminha e o que ela nos permite. E nossa: há algo mais complexo do que a sociedade humana?

Vivemos no tempo do conforto, da facilidade digital e da baixa mobilidade de ideias, de sentimentos, de projetos. Também vivenciamos o tempo do politicamente correto, pauta esta para outro artigo. A hora para fazer acontecer nunca teve data para começar. Se você quiser mudar, aproveite: a mudança está consigo mesmo. Basta um bom ideal, um projeto compatível com a realidade e uma boa pitada de fugir da zona de conforto.

Obs.: Escrevi este texto quase que como um mantra-explicativo. Busco esta receita todos os dias quando entro em um novo projeto. O que me move sempre é o desafio.

Os argumentos contra os argumentos dos “camisas pretas”

vereadoresmaringaE ela está de volta! A polêmica sobre o aumento do número de vereadores em Maringá. E o mais surpreendente: não há nem projeto tramitando no legislativo, mas o debate foi novamente posto à tona pela chamada “sociedade civil organizada”. A tônica da população é acreditar em tal “sociedade”, aliada às questões da política – que, convenhamos, não tem feito uma boa figura. Mas, será que de fato estes argumentos se sustentam?

Na edição do jornal “O Diário do Norte do Paraná” de domingo, uma página inteira foi veiculada sobre o tema. Os argumentos, um a um são:

“1- O aumento de vereadores não significa aumento de representatividade popular, como alegam seus defensores, uma vez que o voto proporcional não garante que que os mais votados sejam, de fato, eleitos.”

Daí questiono: como não? o sistema eleitoral brasileiro permite justamente que, a partir do quociente eleitoral (aquela fórmula complexa), ocorra maior representatividade do eleitorado, especialmente para não eleger os mais votados e sim garantir que a maioria dos partidos estejam contemplados. Resumindo: mais cadeiras significa mais partidos e, portanto, mais segmentos representados. Logo, o argumento está incorreto;

“2- A disponibilidade orçamentária – hoje a câmara gasta menos que o seu orçamento legal e devolve dinheiro que sobra aos cofres municipais – deveria ser cada vez mais incentivada, ainda mais no momento político e econômico atual, que exige austeridade. Se este projeto for aprovado, não haverá devolução dos recursos e muitas áreas que hoje se beneficiam destas verbas serão prejudicadas, em especial a saúde e a segurança pública. Cobramos transparência e também eficiência com as atuais 15 cadeiras. Não poemos retroceder!”

De fato, a Câmara tem sido econômica. Mas, não podemos julgar o atual momento político e econômico e, em seguida, utilizar tal argumento como justificativa para não ampliar as vagas. Imagine você, caro leitor, se a situação melhorar em dois meses. Este argumento ainda seria válido? E mais: os recursos devolvidos dos últimos 3 anos pela Câmara sempre ficaram em torno de 1 milhão de reais. Vale ressaltar que o orçamento legal destinado é de aproximadamente 35, 40 milhões de reais por ano. Hoje legislativo maringaense investe em torno de 12 milhões por ano, o que corresponde a 1% do orçamento de 1,2 bilhão de reais do Poder Executivo, valor este destinado à fiscalização do executivo e à criação de leis. Ora, não é um ínfimo investimento para cumprir com o que a “sociedade civil organizada” deseja? E mais: o valor devolvido à Prefeitura é aplicado da maneira que o chefe do Poder Executivo melhor acreditar, além de que a segurança pública não é de competência municipal e a saúde já possui um amplo orçamento para tal. Mais um argumento inválido.

“3- Quantidade não é sinônimo de qualidade. Simplesmente aumentar em 50% o número de cadeiras não garante que teremos melhores legisladores. Como faz desde a sua criação, o movimento eleitor consciente promove o debate sobre a qualidade do voto, buscando criar, incentivar e divulgar mecanismos de informação e esclarecimento a todos os cidadãos sobre os candidatos e sobre as atividades dos eleitos. E assim entendemos que vamos melhorar a qualidade de nossa representatividade”

Aí podemos debater sobre quantidade e qualidade. Mas a discussão pertinente é sobre o aumento das vagas – e, então, sobre representatividade – e não sobre quantidade/qualidade. Entretanto, a cultura política local predominante é sobre quantidade. Só olharmos os balanços publicados pelos jornais ao término de cada ano. Se assim este movimento deseja, ou seja, discutir sobre a melhoria na qualidade da representatividade, solicito um maior acompanhamento deste grupo sobre as atividades legislativas.

Diante do exposto, podemos afirmar que o cenário criado em relação ao aumento do número de vereadores é extremamente direcionado, não debatendo de fato a atividade do legislador e a possibilidade de melhorar a discussão no parlamento local. Além disso, não podemos justificar a questão “aumentar o número de vereadores” por conta da corrupção, do desvio das verbas públicas e das más práticas políticas – uma situação não depende necessariamente da outra. Mais uma vez, os argumentos dos “camisas pretas” não são convincentes.

Sociologia no tempo das redes sociais

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Há alguns dias, venho discutindo com amigos e alunos a relação entre as redes sociais e a sociologia. Desde a pulverização das mesmas, as pessoas mantém um relacionamento quase que instantâneo, em mundo virtual que nem sempre reflete os fenômenos da realidade. Mas, qual é então a contribuição que a sociologia proporciona aos atuais acontecimentos, na sociedade globalizada e porque não virtualizada?

As redes sociais aí estão e desde o primata Fotolog, uma ferramenta voltada para a publicação e comentários de fotos na internet. A grande dificuldade que víamos nele era o meio de acesso à internet (normalmente discada) e a tensão entre tirar e escanear as fotos, pois ter uma câmera digital na época era privilégio de poucos. Após o sepultamento do Fotolog e a transição para o MSN – rápido e direto na comunicação, o orkut chegou, imperando durante anos com suas comunidades, scraps e depoimentos. Digo que o mais divertido no orkut era ser “100% sexy”, muito melhor do que ser “100% confiável”.

A transição no modo de comunicação entre o orkut e o Facebook foi o Twitter, que por pouco tempo em 140 caracteres apareceu como alternativa à comunicação instantânea. Todavia, ele emplacou mais entre artistas, jornalistas e políticos no Brasil, não aderido à grande parcela da população. De 2011/2012 para cá, o Facebook passou a reinar entre os brasileiros. Com alternativas entre linha do tempo, fotos, vídeos e interatividade real, o Face popularizou os termos curtir, compartilhar e interagir.

Da virada de 2013 para 2014, os jovens passaram a procurar alternativas ao Facebook, invadido por seus pais e por todos, consequentemente. Surgiram o Instagram e o Snapchat, por exemplo. O primeiro, aplicativo destinado ao compartilhamento de fotos e vídeos curtos, é febre entre a moçada; o segundo vem no mesmo estilo, mas em um estilo “chat por fotos”, bem original e rápido. Por fim, vimos o WhastApp, tomando conta dos smartphones e disseminando a comunicação em rede no país – marcado pelas altas tarifas das companhias telefônicas.

O que desejo mostrar neste artigo é que fazemos sociologia o tempo todo. Assim como as redes sociais, a sociologia é dinâmica, se alterando conforme a ocasião e analisando os fenômenos que a sociedade produz de maneira diferente. Isto é, para a sociologia, olhar as ações sociais e vê-las estáticas, pouco dinâmicas, quase que naturais, não interessam: é preciso olhar para além da normalidade dada, visualizando situações deste tipo, em que as pessoas estão em constante comunicação e se relacionando entre si, discutindo assuntos do momento que passam despercebidos pela maioria da população.

Deste rápido exercício, podemos enxergar que a sociologia está presente em todas as nossas ações, em nosso cotidiano. Basta olharmos mais ao nosso redor, em um processo de estranhamento do mundo em que nada é dado como simples, direto, mas sim complexo e que leva uma gama de relações sociais implícitas. Vejamos mais nossa realidade social, considerando que mais do que virtuais, as redes sociais são uma maneira de exemplificar o que a sociologia faz: analisar os assuntos (ou fenômenos sociais) do momento, demonstrando que nada parece ser tão simples do que realmente é…

A Gazeta do Povo tem razão. Em partes.

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Há alguns dias venho refletindo acerca das eleições de 2014. Evitei tecer comentários diretos em relação a alguma candidatura específica. Tenho acompanhado os especialistas das mais diversas correntes tentando explicar alguns fenômenos. Mas, de todos os temas que atingem diretamente o eleitorado deste ano, o que mais acompanho são os ligados ao chamado “voto consciente”. Por que preferi acompanhar este assunto?

A resposta parece ser óbvia, porém não é tão simples assim. Fiz algumas palestras sobre o voto consciente. Chega nesta época todo mundo quer ouvir alguém pra dizer a mesma coisa: analise seus candidatos, vote conscientemente e escolha alguém que vai representar os anseios da população. A fórmula é simples, os resultados não.

A Gazeta do Povo veiculou uma notícia na edição de domingo (21/09), sendo inclusive matéria de capa, intitulada “Escolher um candidato é difícil, mas nunca esteve tão fácil”. Concordo. O argumento do jornal é verdadeiro e existem diversos sites na internet que expõem o trabalho dos políticos na internet, que atinge a metade da população brasileira e cerca de 84 milhões de eleitores.

Além disto, as ferramentas legais de transparência, fiscalização e controle da população estão aí: a Lei de Responsabilidade Fiscal (2000), a Lei da Transparência (2009) e a Lei de Acesso à Informação (2011). Todas as exigências legais aliadas aos sites de ONG’s, movimentos e dos próprios candidatos auxiliam na escolha da nova classe política.

Entretanto, precisamos ir para adiante do voto. Votar e escolher os melhores candidatos nunca esteve tão fácil. O difícil é acompanhar os mandatos, participar de sessões, reuniões, audiências públicas e demais atividades tanto do Poder Executivo quanto do Poder Legislativo. Há a necessidade de estimular a participação e o controle no “durante” e não somente no “antes”.

Ainda que os mecanismos de transparência, participação política e controle social sejam recentes no sistema político brasileiro, o cidadão deve saber que eles existem sim e estão disponíveis a um clique, na tela dos computadores e smartphones. A cultura política brasileira jamais havia experimentado estas possibilidades e, portanto, a paciência se faz necessária. Escolher um candidato nunca esteve tão fácil. Acompanhá-lo durante o mandato também.

Não precisa da minha via

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Não precisa da minha via. Talvez essa frase seja a mais dita por quem opta pela compra via cartão de crédito ou débito. Virou quase um bordão repetido pelos consumidores enquanto guardam seus cartões de volta às carteiras. Afinal, para que se precisa da segunda via sendo que a primeira já foi devidamente creditada ou debitada? Para que quero uma via para guardar e controlar minhas finanças mensais sendo que o estrago na conta já foi feito?

É assim que me sinto a cada dois anos. Saio domingo para ir às urnas – assim, do mesmo modo que milhões de brasileiros farão em 2014. Voto, munido da instrutiva “colinha eleitoral” cedida pelo meu candidato preferido e logo a dispenso. Ah, colinha esta quase sempre rabiscada, uma vez que o candidato “X” indicado pela chapa do meu queridinho não possuía minha preferência. O eleitor que ainda não percebeu deve estar se perguntando: o que a via do cartão se relaciona com o voto?

Aquém dos críticos e defensores, as urnas eletrônicas estão ai desde 1996. Em 1998 foi popularizada e, de 2000 em diante, faça chuva ou faça sol, vença governo ou oposição, elas aparecem a cada dois anos. Avançamos em 2012 com o recadastramento biométrico, permitindo maior identificação do eleitor e dizimando de uma vez possíveis substituições pessoais na hora do voto.

O que poucos sabem é que no final do dia, terminada a eleição, a urna solta uma espécie de extrato, relatando a quantidade de votos de cada candidato naquela seção (ou naquela urna). Ora, se a urna já possui um mecanismo de conferência dos votos, por qual motivo ela não expede a via do eleitor, para que ele mesmo a destaque, leve para casa e cobre dos governantes, acabando de uma vez por todas com o corriqueiro esquecimento existente a partir daquela pergunta: “o senhor se lembra em quem votou na última eleição?”.

O extrato do voto é mais homogêneo que o do tomate, mais verdadeiro do que o bancário e mais importante que o do cartão. Com “a minha via na mão”, posso acompanhar o cotidiano do político em que votei, acabando com as desculpas e exercendo uma parcela a mais na conta da cidadania. Conta, aliás, que todos pagam. Conta que poderia ser diluída, assim, como nas prestações, a partir de uma simples via, mas de extraordinários efeitos nas mãos de quem deseja um futuro político melhor.

Carta ao Gilson Aguiar

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Meu caro amigo Gilson,

                 Estive te acompanhando ontem no debate sobre o golpe militar de 1964 que aconteceu na Câmara Municipal de Maringá. E que evento! A Câmara entra na vanguarda das grandes discussões políticas atuais com eventos dessa alçada. Mas o que me chamou a atenção em sua fala não foi nada a respeito do golpe. Em dado momento, alguém questionou a ausência de comunistas na mesa, composta por você e pela brilhante Nelma de Oliveira. A pergunta também não me convenceu. Mas os caminhos que você indicou para a resposta sim. Segundo suas palavras, você sente saudade de um bom comunista, verdadeiro, e de um bom liberal também. Sente saudade do tempo em que as pessoas se posicionavam conscientemente. E eu também.

                Aí está a melhor sacada tua, Gilson Aguiar, na tarde de ontem. Você é um dos poucos não sociólogos que reservo o direito de exercer a profissão. Historiador que é, faz uma leitura conjuntural às vezes até melhor que meus colegas da área. E, sociólogo que sou, defendo nossa inserção no mercado de trabalho. Mas você, comprovadamente, tem minha permissão para falar em nosso nome. Voltando à sacada, eu também sinto a falta do posicionamento das pessoas.

                Discuto isso há semanas com meu amigo Saulo Justiniano. E acredito que nós três temos razão. Vivemos no mundo do politicamente correto, em que ser neutro se tornou modinha. Ir à crista da onda é o achado de viver da geração atual (e porque não da futura?). Fazemos tudo certinho, tudo regulamentado, numa moral bonita sem fim. Ser contra as minorias organizadas é ser conservador, reacionário. E ser a favor delas é ser revolucionário, extremista. Ser comunista é ser radical. Ser liberal é ser coxinha. E aí está contido também o papel do professor, caro Gilson, que deve prezar pela neutralidade sempre. Já dizia a Ana Lúcia Rodrigues que não encontramos moças virgens em “casas de caridade”. Ela me marcou com essa frase e você com a constatação do momento no dia de ontem.

                Por mais que vivemos em uma sociedade de rótulos, assumi-los virou tarefa perigosa. Quando os órgãos de comunicação fazem isso todos se indignam; quando os professores fazem isso, todos se levantam em favor do conhecimento; quando um técnico tira um atacante e escala um defensor, todos dizem que o futebol alegre acabou; quando eu escrevo isso, todos dirão que sou puxa-saco…Assim é a vida em sociedade em que vivemos: marcada pelos rótulos colocados pelas pessoas em nós mesmos (e, em inúmeras vezes, nem nós mesmos sabemos disso). E marcada, é claro, por rótulos que nem mesmo as pessoas sabem por que colocam…

                Em um cenário que nem se sabe mais o que é direita ou o que é esquerda (e se isso um dia existiu na política brasileira), se posicionar ficou perigoso. Em nome do papel institucional que temos que cumprir, as vozes se calam e o silêncio avassalador toma conta da sociedade. O cri-cri dos grilos tem mais valor do que as ideias articuladas dos humanos. E o não ter opinião (que é um modo de ter opinião) ganha o coro dos descamisados em nome da neutralidade. Ah, neutralidade esta que jamais existiu. Basta lembrar-se da Ana Lúcia. Basta lembrar-se do golpe militar. Basta lembrar-se da sua inquietude Gilson, da minha inquietude, da inquietude que desapareceu. Um grande abraço, Gilson.