A democracia distante

O semanário inglês “The Economist” organiza e divulga desde 2006 um ranking dos países sobre a prática democrática. Conhecido como o “índice da democracia”, este levantamento considera cinco pontos essenciais para que o regime democrático funcione nos 167 países pesquisados: o processo eleitoral e pluralismo; as liberdades civis; o funcionamento do governo; a participação política e a cultura política.

Desde então, o Brasil é considerado como uma democracia imperfeita, a segunda categoria geral do ranking, que ainda contempla acima a democracia plena e, abaixo, os regimes híbridos e os autoritários. Em linhas gerais, podemos até considerar o desempenho nacional como satisfatório, considerando que desde 1989 experimentamos eleições perenes, com a substituição de lideranças no poder. Entretanto, é preciso avançar.

Nesta edição, divulgada em janeiro de 2018, o Brasil atingiu sua pior nota geral histórica (6,86, em uma escala de zero a dez), número distante dos 7,38 de 2014 e de 2008, quando obteve o melhor desempenho. Todavia, o país subiu duas posições no ranking, ocupando a 49ª posição – muito porque 88 países tiveram queda na avaliação.

O destaque positivo brasileiro se dá pelo bom processo eleitoral e pluralismo, além das liberdades civis. As piores notas são quanto ao funcionamento do governo e, principalmente, a nota cinco em participação política. É justamente neste ponto que precisamos melhorar.

O brasileiro, conforme apontado, pouco participa politicamente. Com o fenômeno das redes sociais, criamos um cidadão um pouco mais ativo, buscando compreender a política e tomando partido de candidatos e de conjunturas, especialmente na esfera nacional. Ainda assim, é preciso investir em dois pontos para que o Brasil avance nestes indicadores: maior conhecimento do sistema político (eleitoral e partidário, por conseguinte) e participação política efetiva, com mais mulheres disputando eleições, cidadãos engajados nas discussões políticas municipais, nas ótimas experiências dos conselhos gestores e interesse no debate político, compreendendo ideologias e posicionamentos de candidatos e partidos.

Somente por intermédio do que chamamos de “educação política” é que nós brasileiros experimentaremos indícios de uma democracia plena. Para isto, o dever de casa perpassa pelos políticos, que precisam melhorar o exemplo de boa conduta na máquina pública e pela população, que necessita refutar pequenas corrupções.

A busca por uma “democracia perfeita” deve ser nosso principal objetivo quando falamos sobre política. Nesta longa trajetória, a participação e o engajamento em causas e projetos deve ser apoiada, com a finalidade de sempre lembrar a nossa grande missão: a responsabilidade sobre a coisa pública em uma democracia é de todos nós.

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Por quê Luciano Huck incomoda tanto?

“Porque ele é o candidato à Presidência da República da Rede Globo de Televisão”. Mais do que uma simples afirmação, dotada de posicionamento político evidente, é preciso avaliar os motivos pelos quais um apresentador de televisão tem gerado tantas discussões na internet por ser cogitado a disputar uma vaga para ser candidato à Presidência da República em outubro próximo.

Longe do pioneirismo na disputa eleitoral, a categoria “apresentadores de televisão” sempre chamou a atenção do campo da política – e não é de hoje. Prova viva, Celso Russomanno (PRB-SP) é Deputado Federal pelo quinto mandato, sendo inclusive candidato à Prefeitura do maior município brasileiro. Outros nomes despontaram no eixo mídia-política, como Tiririca (PR-SP) e seus milhões de votos legislativos. Silvio Santos, do SBT, foi candidato por um curto período em 1989. Sem falar nos inúmeros casos nas Câmara Municipais e Prefeituras do Brasil.

Entretanto, a envergadura da disputa presidencial requer maiores cuidados e, boa parte do eleitorado tem rejeitado veementemente a candidatura de Huck. Ao contrário de outros pré-candidatos, o primeiro aspecto a ser destacado é o próprio conhecimento da vida pública do apresentador, bem como suas intenções. Formado em Direito pela USP, em um dos cursos mais tradicionais do país, oriundo de uma família de classe média-alta paulistana, fez carreira em agências de publicidade antes de se tornar conhecido na televisão. Na Band e, desde 2000 na Rede Globo, a especialidade de Huck é comunicar com entretenimento, com uma dose de questões sociais em seus quadros, que tem como alvo mexer com a emoção das pessoas. Casado com a também apresentadora Angélica, o casal é um dos mais queridos do público, dominando as tardes de sábado da Globo.

Ou seja, a biografia de Huck, enquanto trajetória social, reflete seu propósito: um integrante de família abastada da tradicional elite paulistana, apresentando há anos um semanário de entretenimento, com a facilidade de conversar com as pessoas pelo meio de comunicação mais universal do Brasil: a televisão. Das 67 milhões de residências no Brasil, 65 milhões tem pelo menos um aparelho de televisão. Este número é inclusive maior que o de geladeiras. Considerando a supremacia da audiência da Globo no país, que domina as telenovelas e a transmissão do futebol, esporte mais popular do Brasil, a política parece ser mais uma “diversificação de negócios” do grupo Marinho.

A sirene de alerta foi acendida quando os principais analistas políticos do Brasil enxergam um caminho para o crescimento de uma candidatura “de centro” no espectro eleitoral, polarizado atualmente por Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). Huck poderia ocupar esta lacuna: adiantadamente é uma figura conhecida (só perde neste quesito para o ex-Presidente Lula), tem a audiência semanal e facilmente “entra na casa das pessoas”, dificuldade que os demais candidatos enfrentam – disputando a atenção dos eleitores, sobretudo, na internet. Por outro lado, Luciano seria uma espécie de “outsider”, o que não partilha do cotidiano da política, algo que poderá ser relevante no pleito vindouro.

O discurso de ódio contra a candidatura de Luciano Huck nada acrescenta no debate político. Dizer tudo o que já sabemos sobre ele é enfatizar um enredo conhecido há mais de 20 anos e que terá as consequências outrora esperadas. Tentar barrar a candidatura de um cidadão me parece pouco democrático, virtude esta levantada por todos os demais postulantes e seus respectivos simpatizantes. Conviver, apontando as diferenças entre os “presidenciáveis” talvez seja a melhor saída. A lata velha da política brasileira precisará dialogar com o potencial de Luciano Huck.

Sociologia no tempo das redes sociais

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Há alguns dias, venho discutindo com amigos e alunos a relação entre as redes sociais e a sociologia. Desde a pulverização das mesmas, as pessoas mantém um relacionamento quase que instantâneo, em mundo virtual que nem sempre reflete os fenômenos da realidade. Mas, qual é então a contribuição que a sociologia proporciona aos atuais acontecimentos, na sociedade globalizada e porque não virtualizada?

As redes sociais aí estão e desde o primata Fotolog, uma ferramenta voltada para a publicação e comentários de fotos na internet. A grande dificuldade que víamos nele era o meio de acesso à internet (normalmente discada) e a tensão entre tirar e escanear as fotos, pois ter uma câmera digital na época era privilégio de poucos. Após o sepultamento do Fotolog e a transição para o MSN – rápido e direto na comunicação, o orkut chegou, imperando durante anos com suas comunidades, scraps e depoimentos. Digo que o mais divertido no orkut era ser “100% sexy”, muito melhor do que ser “100% confiável”.

A transição no modo de comunicação entre o orkut e o Facebook foi o Twitter, que por pouco tempo em 140 caracteres apareceu como alternativa à comunicação instantânea. Todavia, ele emplacou mais entre artistas, jornalistas e políticos no Brasil, não aderido à grande parcela da população. De 2011/2012 para cá, o Facebook passou a reinar entre os brasileiros. Com alternativas entre linha do tempo, fotos, vídeos e interatividade real, o Face popularizou os termos curtir, compartilhar e interagir.

Da virada de 2013 para 2014, os jovens passaram a procurar alternativas ao Facebook, invadido por seus pais e por todos, consequentemente. Surgiram o Instagram e o Snapchat, por exemplo. O primeiro, aplicativo destinado ao compartilhamento de fotos e vídeos curtos, é febre entre a moçada; o segundo vem no mesmo estilo, mas em um estilo “chat por fotos”, bem original e rápido. Por fim, vimos o WhastApp, tomando conta dos smartphones e disseminando a comunicação em rede no país – marcado pelas altas tarifas das companhias telefônicas.

O que desejo mostrar neste artigo é que fazemos sociologia o tempo todo. Assim como as redes sociais, a sociologia é dinâmica, se alterando conforme a ocasião e analisando os fenômenos que a sociedade produz de maneira diferente. Isto é, para a sociologia, olhar as ações sociais e vê-las estáticas, pouco dinâmicas, quase que naturais, não interessam: é preciso olhar para além da normalidade dada, visualizando situações deste tipo, em que as pessoas estão em constante comunicação e se relacionando entre si, discutindo assuntos do momento que passam despercebidos pela maioria da população.

Deste rápido exercício, podemos enxergar que a sociologia está presente em todas as nossas ações, em nosso cotidiano. Basta olharmos mais ao nosso redor, em um processo de estranhamento do mundo em que nada é dado como simples, direto, mas sim complexo e que leva uma gama de relações sociais implícitas. Vejamos mais nossa realidade social, considerando que mais do que virtuais, as redes sociais são uma maneira de exemplificar o que a sociologia faz: analisar os assuntos (ou fenômenos sociais) do momento, demonstrando que nada parece ser tão simples do que realmente é…

Não precisa da minha via

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Não precisa da minha via. Talvez essa frase seja a mais dita por quem opta pela compra via cartão de crédito ou débito. Virou quase um bordão repetido pelos consumidores enquanto guardam seus cartões de volta às carteiras. Afinal, para que se precisa da segunda via sendo que a primeira já foi devidamente creditada ou debitada? Para que quero uma via para guardar e controlar minhas finanças mensais sendo que o estrago na conta já foi feito?

É assim que me sinto a cada dois anos. Saio domingo para ir às urnas – assim, do mesmo modo que milhões de brasileiros farão em 2014. Voto, munido da instrutiva “colinha eleitoral” cedida pelo meu candidato preferido e logo a dispenso. Ah, colinha esta quase sempre rabiscada, uma vez que o candidato “X” indicado pela chapa do meu queridinho não possuía minha preferência. O eleitor que ainda não percebeu deve estar se perguntando: o que a via do cartão se relaciona com o voto?

Aquém dos críticos e defensores, as urnas eletrônicas estão ai desde 1996. Em 1998 foi popularizada e, de 2000 em diante, faça chuva ou faça sol, vença governo ou oposição, elas aparecem a cada dois anos. Avançamos em 2012 com o recadastramento biométrico, permitindo maior identificação do eleitor e dizimando de uma vez possíveis substituições pessoais na hora do voto.

O que poucos sabem é que no final do dia, terminada a eleição, a urna solta uma espécie de extrato, relatando a quantidade de votos de cada candidato naquela seção (ou naquela urna). Ora, se a urna já possui um mecanismo de conferência dos votos, por qual motivo ela não expede a via do eleitor, para que ele mesmo a destaque, leve para casa e cobre dos governantes, acabando de uma vez por todas com o corriqueiro esquecimento existente a partir daquela pergunta: “o senhor se lembra em quem votou na última eleição?”.

O extrato do voto é mais homogêneo que o do tomate, mais verdadeiro do que o bancário e mais importante que o do cartão. Com “a minha via na mão”, posso acompanhar o cotidiano do político em que votei, acabando com as desculpas e exercendo uma parcela a mais na conta da cidadania. Conta, aliás, que todos pagam. Conta que poderia ser diluída, assim, como nas prestações, a partir de uma simples via, mas de extraordinários efeitos nas mãos de quem deseja um futuro político melhor.

Carta ao Gilson Aguiar

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Meu caro amigo Gilson,

                 Estive te acompanhando ontem no debate sobre o golpe militar de 1964 que aconteceu na Câmara Municipal de Maringá. E que evento! A Câmara entra na vanguarda das grandes discussões políticas atuais com eventos dessa alçada. Mas o que me chamou a atenção em sua fala não foi nada a respeito do golpe. Em dado momento, alguém questionou a ausência de comunistas na mesa, composta por você e pela brilhante Nelma de Oliveira. A pergunta também não me convenceu. Mas os caminhos que você indicou para a resposta sim. Segundo suas palavras, você sente saudade de um bom comunista, verdadeiro, e de um bom liberal também. Sente saudade do tempo em que as pessoas se posicionavam conscientemente. E eu também.

                Aí está a melhor sacada tua, Gilson Aguiar, na tarde de ontem. Você é um dos poucos não sociólogos que reservo o direito de exercer a profissão. Historiador que é, faz uma leitura conjuntural às vezes até melhor que meus colegas da área. E, sociólogo que sou, defendo nossa inserção no mercado de trabalho. Mas você, comprovadamente, tem minha permissão para falar em nosso nome. Voltando à sacada, eu também sinto a falta do posicionamento das pessoas.

                Discuto isso há semanas com meu amigo Saulo Justiniano. E acredito que nós três temos razão. Vivemos no mundo do politicamente correto, em que ser neutro se tornou modinha. Ir à crista da onda é o achado de viver da geração atual (e porque não da futura?). Fazemos tudo certinho, tudo regulamentado, numa moral bonita sem fim. Ser contra as minorias organizadas é ser conservador, reacionário. E ser a favor delas é ser revolucionário, extremista. Ser comunista é ser radical. Ser liberal é ser coxinha. E aí está contido também o papel do professor, caro Gilson, que deve prezar pela neutralidade sempre. Já dizia a Ana Lúcia Rodrigues que não encontramos moças virgens em “casas de caridade”. Ela me marcou com essa frase e você com a constatação do momento no dia de ontem.

                Por mais que vivemos em uma sociedade de rótulos, assumi-los virou tarefa perigosa. Quando os órgãos de comunicação fazem isso todos se indignam; quando os professores fazem isso, todos se levantam em favor do conhecimento; quando um técnico tira um atacante e escala um defensor, todos dizem que o futebol alegre acabou; quando eu escrevo isso, todos dirão que sou puxa-saco…Assim é a vida em sociedade em que vivemos: marcada pelos rótulos colocados pelas pessoas em nós mesmos (e, em inúmeras vezes, nem nós mesmos sabemos disso). E marcada, é claro, por rótulos que nem mesmo as pessoas sabem por que colocam…

                Em um cenário que nem se sabe mais o que é direita ou o que é esquerda (e se isso um dia existiu na política brasileira), se posicionar ficou perigoso. Em nome do papel institucional que temos que cumprir, as vozes se calam e o silêncio avassalador toma conta da sociedade. O cri-cri dos grilos tem mais valor do que as ideias articuladas dos humanos. E o não ter opinião (que é um modo de ter opinião) ganha o coro dos descamisados em nome da neutralidade. Ah, neutralidade esta que jamais existiu. Basta lembrar-se da Ana Lúcia. Basta lembrar-se do golpe militar. Basta lembrar-se da sua inquietude Gilson, da minha inquietude, da inquietude que desapareceu. Um grande abraço, Gilson.

Quando a economia é desnecessária

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Os camisas-pretas e a falácia argumentativa

Uma recorrente disputa entre os políticos e a sociedade civil tem pautado o cenário nos últimos anos: a redução / aumento do número de vereadores no país. De um lado, o grupo dos contrários, dizendo que há gastos demais na administração pública para se preocupar com a questão. Do outro lado, a classe política, justificando a representatividade nas câmaras municipais do Brasil. Mas, até que ponto a questão é pertinente?

Se olharmos a história política brasileira, o número de vereadores sempre foi proporcional à população de uma cidade. Por intermédio de uma resolução do TSE, o número de parlamentares em todo o país foi reduzido em 2004. Quem acreditava que a questão havia sido finalizada se enganou. Em 2009, a Proposta de Emenda Constitucional nº 58 se consolidou e, imediatamente, diversas câmaras do país correram para rever o sistema de “faixas”, que estabelece a quantidade de vereadores por localidade.

Em Maringá a questão veio à tona em 2011. A chamada “Sociedade Civil Organizada” promoveu uma maciça campanha na imprensa, alegando que a população precisava de mais segurança, mais emprego, mais saúde, mais educação – e não mais vereadores. Em diversas peças publicitárias, apelando para o discurso da moralidade, os “camisas-pretas” lotaram o plenário do Poder Legislativo – e nunca mais voltaram lá.

Esta mensagem propagandista foi colocada no imaginário da população como a verdade absoluta dos fatos. Sou favorável ao aumento do número de vereadores em Maringá e já defendi isso publicamente em diversas ocasiões. Mantenho minha posição por apenas três argumentos que colocam abaixo a campanha acima citada.

Em primeiro lugar, há de se considerar que o vereador é o fiscal do povo, sendo que até 5% da verba do orçamento público local (avaliado em mais de 1 bilhão de reais em 2014) é destinada à Câmara Municipal de Maringá, que gasta de 3 a 3,5% deste orçamento (sempre devolvendo dinheiro aos cofres públicos). Ou seja, tudo o que a chamada “Sociedade Civil Organizada” requisitava deveria ser feito com outros recursos – e não com esses.

O segundo ponto é meramente comparativo. Alguns municípios da região com população extremamente menor têm até 15 parlamentares.  É preciso olhar Maringá como uma cidade do futuro, que possui 385 mil habitantes segundo a última contagem populacional, além de ser pólo regional. Não dá para comparar a necessidade de representação política de Maringá com as cidades da região.

E é justamente a representatividade política que baliza meu terceiro argumento. Mais vereadores não é sinônimo de gastos. Mais vereadores é sinônimo de ampliar a quantidade de grupos organizados presentes no Poder Legislativo. Hoje são 15 vereadores na cidade. Maringá pode ter até 23 representantes. Em um parlamento com 23 representantes, por exemplo, haveria uma maior disputa de ideias, ampliando o debate, ampliando a presença da oposição e a divergência de opiniões, algo típico do parlamento.

Se continuarmos pensando Maringá como uma cidade interiorana (aquela, em uma leva que a cabocla veio como retirante), a política sempre será espaço para a presença do personalismo, das práticas oligárquicas e elitistas, apontadas indiretamente por mim nos últimos anos. Está na hora de rever a questão, de colocar as expectativas da população em primeiro lugar e demonstrar que os vereadores devem realizar de fato seu papel: fiscalizar e legislar para todos, não atendendo favores políticos de grupos específicos, mostrando independência e rediscutindo o aumento de vagas. Mais vereadores não significa mais gasto (até porque o orçamento já é dado). Mais vereadores significa sim, maior presença do povo no Poder Legislativo.

Expandindo horizontes

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Marcos Peres e o livro.

Nunca fui um viciado em ler romances. Sempre preferi os livros chamados “técnicos” aos romances escritos. Daí um dia vi que um cara conhecido – que nem é tão amigo, mas pode se tornar, ganhou um prêmio de literatura. Eu havia jogado um futebol com ele com um grupo de jovens. Seu desempenho: horrível. Mas de bom coração. Querido pelos mais jovens, inspirador de ideias. A partir daí pensava: quem é esse tal Marcos Peres? Por que chamam esse cidadão de Astorga?

A história estava apenas começando. Marcos Peres viveu sua infância em Astorga e, conhecendo seu pai, soube que o mesmo trabalhou no Instituto Brasileiro do Café (IBC), residindo naquela excelente cidade. Marcos – ou o popular Marquinhos, foi parar em Presidente Prudente (SP), onde mora minha família. Nossas coincidências não param por aí: Marquinhos também gosta do silêncio (observado na visita que fiz ao mesmo recentemente), adora viagens inesperadas e aprecia a boa leitura.

Esses ingredientes levaram-me a ler “O Evangelho Segundo Hitler”, ilustrado pela matéria de jornal de autoria do “Vampiro de Astorga”. Afinal, quem é esse tal Marcos Peres? Ao longo do livro dá para perceber quem é ele: culto, de leitura fácil – mas instigante; escreve com classe, mas uma hora ou outra, solta um palavrão.

Voltando de Curitiba esses dias um senhor olhou a capa do livro e disse: “é romance?”. Eu disse que sim e ele perguntou novamente “de onde é?”. “Maringá!”, respondi com firmeza. O senhor comentou que de Maringá conhecia Laurentino Gomes, dos 1808, 1822 e 1889 e sua já famosa e reconhecida trilogia. Marcos Peres não está tão famoso assim, mas, talvez do começo até o fim deste artigo, alguém o convide para um novo lançamento ou alguém acabe de ler o livro e se apaixone ainda mais pela sua escrita.

Marquinhos traz no livro não somente um título instigante, polêmico, ao ponto de relacionar o evangelho bíblico com o carrasco Hitler (seria um Deus e o Diabo na terra do sol?). Ele é capaz de envolver seu leitor em mundos distintos, com uma história de dúvida e amor que só quem lê é capaz de perceber.

Indico a leitura do livro mesmo não sendo conhecedor e apaixonado por essa literatura. Talvez Marcos Peres tenha surgido com uma valise, entregando-a a mim e dizendo: “relaxa tua cabeça, expanda seus horizontes e conheça mais a literatura”. E, quando comparado a Laurentino Gomes, possamos um dia dizer: ele é famoso e reconhecido do mesmo modo, pois o que é ótimo não deve ficar no HD e o conhecido pode ser tornar meu amigo.