A tristeza chegou aos trópicos

“O problema é que acho que hoje não existe mais arte”. Afirmar isto sob quaisquer circunstâncias constitui de uma tarefa ousada. Tão ousada que tal constatação não é lançada ao vento, como simples palavras em um diálogo qualquer. Claude Lévi-Strauss (1908-2009), em entrevista de 1993 previa “o fim das artes”. Entretanto, a contribuição dada por Lévi-Strauss às ciências humanas fatalmente estão para além do imaginado.

Após o anúncio da morte do antropólogo ontem (03 de Novembro), uma lacuna que não mais pode ser ocupada se abriu no campo das ciências humanas – em especial na antropologia, sociologia e filosofia. Belga de nascimento, francês por opção, de família judia, lecionou na década de trinta na recém-criada Universidade de São Paulo. Na bagagem, trouxe a erudição e levou a simpatia pelo Brasil e um amadurecimento acadêmico invejável.

Nas expedições realizadas pelo centro-oeste brasileiro, Lévi-Strauss se afirmou como etnólogo. Publicou em 1955 “Tristes Trópicos”, uma etnografia inusitada sobre os povos indígenas locais. Antes, porém, escreveu “As estruturas elementares do parentesco”, no qual indicou alguns pilares do estruturalismo – método que prioriza as estruturas sociais na interpretação de um sistema. Além destes, podemos citar “Totemismo Hoje” (1962); “Pensamento Selvagem” (1962); O cru e o cozido (1964); entre muitos outros.

O legado deixado por Lévi-Strauss é imenso. Propulsionou a discussão universitária brasileira. Inspirou uma leva de antropólogos, consolidando-os certamente como vanguarda na antropologia mundial. Rompeu com o abismo entre civilizados e não civilizados, valorizando uma das maiores propriedades dos seres humanos: a cultura.

Homem centenário, atravessou um século inflado de acontecimentos que marcaram a história. De longe, era um dos mais importantes intelectuais vivos do mundo. Residia em seu apartamento em Paris nos últimos cinquenta ano. Recebia poucos amigos, poucas visitas. Todavia, milhares e milhares de leitores visitavam Lévi-Strauss em seus textos. E ouso afirmar: (re) visitar Claude Lévi-Strauss é viajar por um mundo repleto de novas – e boas descobertas.

Publicado originalmente em “Jornal do Povo”, em 05/11/2009

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s