Tio patinhas no centro do universo

Em “Tio Patinhas no centro do universo”, José de Souza Martins realiza uma leitura sociológica das histórias ocorridas em Patópolis, cujos habitantes são personagens criadas pela empresa de Walt Disney. Este texto foi originalmente publicado em “Ciência e Cultura” volume 27, número 9, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Setembro de 1975.

Tio Patinhas é o pato mais rico do mundo, com a fortuna fixada na cidade de Patópolis. Possui um talismã, a moedinha número 1, considerada pelo mesmo como a fonte de toda a riqueza por ele adquirida. É avarento e tem como sobrinhos Donald e Gastão, interessados na herança do tio. Donald, um pai sem filhos, exerce este função com os sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luizinho. O autor cita que e os sobrinhos “têm o que falta a Donald – apenas os pedaços das idéias – enquanto Donald tem o que já é obsoleto – as idéias por inteiro”. Neste ponto, se inicia a crítica ao sistema capitalista, o qual as atividades são realizadas por partes, tal como na produção em série, criada por Henry Ford (1863-1947).

Veja que ter as idéias fragmentadas, organizadas sistematicamente, é um diferencial para os sobrinhos de Donald, que apenas cumprem as funções. Estas funções são para o autor como um “Manual do Escoteiro”, fonte das informações utilizadas pelo saber e do qual se adquire todas as respostas. Além de ser pai sem ter filhos, Donald é marido sem ter mulher. A namorada Margarida é exploradora de Donald, não trabalhando e mantendo uma relação de interesse com o pato. Aceita a corte de Gastão, primo de Donald, para manter o último “escravo” dela.

Tal como a moedinha número 1 é talismã para Patinhas, Gastão é possuidor de sorte, fato atribuído por andar com um pé-de-coelho. A presença do talismã é de suma importância, pois o mesmo é a fonte de um direito natural, o direito de enriquecer. Por Donald e os três sobrinhos trabalharem, é preciso ser explicado o porque alguns possuem riqueza e outros não. Analogamente, o direito natural é apresentado no Estado de Natureza, do Segundo Tratado Sobre o Governo, de John Locke. Cito-o:


“Devemos considerar em que estado todos os homens se acham naturalmente, sendo este um estado de perfeita liberdade para ordenar-lhes as ações e regular-lhes as posses e pessoas conforme acharem conveniente, dentro dos limites da lei da natureza, sem pedir permissão ou depender da vontade de qualquer outro homem”.


Peninha, primo de Donald, não entende porque não se encaixa neste sistema: Enquanto o segundo é dotado da falta de criatividade e executor das tarefas, Peninha pensa, tem imaginação e iniciativa. O autor critica cita que “Peninha está mergulhado na racionalidade funcional de um universo instituído que ‘dispensa’ os patos e os homens, absorvendo-os apenas no cumprimento do ritual dos papéis sociais rigidamente demarcados”. Ou seja, para o sistema capitalista, não há a necessidade de pensar; basta apenas executar uma atividade previamente constituída, fruto da imitação de alguém que já a fez.

O filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin, 1936, que critica veementemente a sociedade industrial capitalista, demonstra claramente este cumprimento de papéis o qual o autor cita. Patinhas, dono da riqueza, não é senhor do dinheiro, mas servo. O dinheiro dita o que ele deve realizar, como aplicá-lo. Peninha tenta criar soluções; Patinhas dinheiro. Os sobrinhos de Donald receberam os pedaços da especialização do mundo: o trabalho para Donald, a sorte para Gastão e a iniciativa para Peninha.

Na fazenda de Vovó Donalda que os integrantes da família voltam ao mundo natural, deixam temporariamente de ser escravos do dinheiro. Curiosamente, os vínculos familiares presentes não são proporcionados por laços de consangüinidade. O vínculo é criado pelo dinheiro, que regulamenta todas as relações sociais existentes. Na tentativa de roubar a riqueza de Patinhas, Maga Patalójika quer a moedinha número 1, a fonte de toda prosperidade de Patinhas. Este talismã simboliza os riscos que correm no sistema capitalista: a sorte do proprietário da moeda e a desgraça do outro. Maga tenta apoderar-se da fonte da opulência enquanto os irmãos Metralha almejam a riqueza já acumulada.

Pardal, cientista que ocupa o tempo na tentativa de solucionar os grande e pequenos problemas de Patópolis, desliga-se do mundo e se concentra apenas nos inventos. Contudo, Pardal não está presente no universo de Patinhas, pois as criações não possuem um caráter de mercadoria. O cientista deixa de ser doido quando se torna escravo do capital, “porque a racionalidade é a dos objetos e a do enriquecimento que propiciam quando são comprados e vendidos”, nas palavras do autor.

Desta forma, José de Souza Martins realiza uma análise sociológica do mundo da fantasia, apropriando-se da imaginação de Carl Barks, autor do personagem, transpondo a ficção para a realidade, num método comparativo da sociedade atual com os habitantes de Patópolis. E assim, incita o leitor a pensar sobre a sociedade presente e as relações da mesma com o sistema capitalista.

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3 pensamentos sobre “Tio patinhas no centro do universo

  1. sou prof de sociologia e preciso do texto que vc fez o otimo comentário acima.pode me ajudar??
    grata pela sua suposta colaboração
    profª leo
    MANAUS-AM

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