Pitacos na antropologia

INTERPRETAÇÃO DE GEERTZ E RELAÇÃO COM ANTROPOLOGIA HISTÓRICA


Em “A Interpretação das Culturas”, do antropólogo estadunidense Clifford Geertz (1926-2006), a principal questão abordada é como fazer uma interpretação das culturas, através do método por ele proposto. Segundo Geertz, o conceito de cultura “é essencialmente semiótico”. Semiótica é, em suma, é a ciência dos signos, ou seja, um processo representativo na natureza e na cultura do conceito de idéia (logo, idéia essa expressada por intermédio da linguagem de signos). Considerando, então, a cultura sob a perspectiva semiótica, cultura é um conceito altamente interpretativo, pois aquilo que um agente vê pode ser totalmente diferente do que o outro observador enxerga.

Partindo desta premissa, a tarefa do etnógrafo é extremamente interpretativa. Poderíamos condensar a antropologia proposta pelo o autor como algo somente interpretativo, como a simples tarefa de interpretar? Em termos. É fato que as contribuições de Clifford Geertz para a antropologia superaram as barreiras do “simples interpretativo”. Fazer etnografia não é uma atividade simples como parece:

É como tentar ler (no sentido de “construir uma leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado (Geertz, 1978: 20).

Condenando todo tipo de antropologia de segunda a terceira mão, Geertz enfatiza sempre a necessidade do contato do antropólogo com aquilo que é pesquisado. Um texto etnográfico não deixa de ser interpretação, à medida que são “modelados” por quem realizou a pesquisa. E, como a interpretação possui caráter subjetivo, haverá uma relação bem diferente por parte de quem absorve as informações. Isto exposto, existem três características para a descrição etnográfica: é interpretativa, o que ela interpreta é resultado de um “discurso social” e a interpretação realizada objetiva salvar do dito o que é importante, tornando isto como formas para extensão de pesquisa.

Decorrendo destas três características principais, uma outra é ponderada: é microscópica. Neste momento, o autor se aproxima muito de Max Weber (1864-1920), no sentido da importância de uma análise peculiar, a qual um fragmento especializado possui maior valia do que um todo mal pesquisado. Esta influência de Weber na obra de Clifford é evidente: tanto no início da discussão “o que é cultura?”, como já em tempo adiantado:

A análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa. É uma ciência estranha, cujas afirmativas mais marcantes são as que tem base menos trêmula, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado é intensificar a suspeita. (Geertz, 1978: 39).

Condensadas até aqui as principais argumentações de Clifford Geertz sobre a interpretação das culturas, obra mister deste estudo, partimos agora para um trabalho dialógico com dois textos: “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro (1922-1997) e “Ilhas de História”, de Marshall Sahlins (1930-). Ambos são etnografias de duas realidades diferentes: no primeiro, o Brasil nos primórdios da colonização e, no segundo, os nativos das Ilhas Cook.

Sahlins define dois tipos de sociedade: as prescritivas e as performativas. Sociedades prescritivas são aquelas que possuem “grupos delimitados e regras obrigatórias”, ou seja, são sociedades com organização já estabelecida, com um sistema regulador de relações sociais a ser identificado. Já as sociedades performativas são aquelas modeladas conforme ações que proporcionavam algum significado, ou seja, que se formam a partir de relações não estabelecidas até então. Nesta definição de Marshall Sahlins, obtemos um ponto convergente e um divergente com a teoria interpretativa de Geertz. A interpretação de uma certa cultura se aproxima mais do método performativo, pois obter uma determinada interpretação varia muito de autor para autor. Como não existe alguma estrutura reguladora do modo de vida da sociedade, a teoria interpretativa pode ser aplicada na (s) cultura (s) existente (s) até então e sucessivamente nas que possam surgir. Todavia, interpretar algo já moldado é tarefa mais complicada, pois é evidente que tal paradigma regula todo o cultivo de costumes de certa sociedade.

Para salientar um outro ponto próximo à interpretação de Geertz, em “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro, o título do segundo capítulo demonstra que existem muitas interpretações: o enfrentamento dos mundos. Neste capítulo, estão expressas as relações opostas entre índios e europeus. Para os europeus, os índios eram vadios demais; já os índios acreditavam que aqueles eram aflitos demais; Os índios acreditavam que a vida era tranqüila e calma; Os viajantes já referendavam a vida como “uma sofrida obrigação”. Além destas visões opostas de mundo, as razões deste choque de culturas também eram desencontradas. Enquanto os índios estigmatizados como o atraso em si, os europeus eram considerados por si próprios como os mais evoluídos; Há ainda o conflito do índio “saudável”, não conhecedor das doenças, com o europeu carregado de pestes. Deste modo, a interpretação do modo de vida dos índios divergia da concepção de viver dos “colonizadores”.

Um último valor ponderado divergente do proposto por Clifford Geertz é o tipo de antropologia que realizamos ao obter informações das Ilhas Cook e da “colonização” brasileira a partir da leitura destes textos. Segundo o autor:

A exigência de atenção de um relatório etnográfico não repousa tanto na capacidade do autor em captar os fatos primitivos em lugares distantes e levá-los para casa como uma máscara ou um entalho, mas no grau em que ele é capaz de esclarecer o que ocorre em tais lugares (GEERTZ, 1978, p. 26).

Ora, então como fazer antropologia nestas sociedades, se já não vivemos mais à época delas? Neste caso, há o conflito do proposto por Geertz: realizamos uma antropologia de segunda e terceira mão, obtendo informações a partir de um não-nativo e que interpretou do modo mais conveniente às informações absorvidas.

Pro fim, concluo que não devemos descartar as etnografias de Ribeiro e Sahlins, muito menos estabelecer que sociedades prescritivas são melhores que as performativas, ou até mesmo proporcionar uma luta entre culturas. Afinal, cultura não é isto ou aquilo, tampouco o apresentado por Geertz: é tudo uma questão de interpretação. Quiçá, Clifford Geertz não havia pensado nisso antes de criar a interpretação das culturas…

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