A copa do mundo ofuscando as eleições 2018

 

A Copa do Mundo da Rússia é o assunto do momento nos diversos portais de notícias do Brasil e do mundo. E, com isso, as eleições de 2018 ficaram um pouco de lado, tanto em relação à cobertura da imprensa, quanto em relação aos candidatos, que esfriaram o clima de campanha.

O frio veio com o inverno russo, em um movimento natural de migração dos holofotes. Se o povo quer copa, claro que não quer política, um assunto costumeiramente deixado de lado pela população. Ora, se não há o interesse, por quê falar daquilo que não nos move?

Enquanto os tamborins tocam para a seleção brasileira, as vuvuzelas, os rojões e as cornetas da política acumulam pó, em um frio já esperado. Afinal de contas, se o ano só começa depois do carnaval, as eleições gerais só se iniciam quando o árbitro dá o apito final da copa do mundo.

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A democracia abalada

Um relatório publicado nesta semana pelo Instituto da Democracia da UNICAMP mostra-nos que desde 2002, quando a pesquisa sobre a satisfação do brasileiro com a democracia é realizada, nunca estivemos tão pouco confiantes nesta forma de governo. Dos 2500 entrevistados de 179 municípios do país, apenas 19,4% estão muito satisfeitos com a democracia, ainda que a maioria concorde que ela é a melhor forma de se conduzir os rumos da política.

Talvez podemos atribuir o descrédito da democracia não somente em relação ao seu formato, mas também quanto às péssimas notícias oriundas da classe política, que tanto faz por merecer o seu atual posto de desconfiança. Escândalos de corrupção, obras não concluídas, condutas pouco éticas, todos estes fatores fazem com que a democracia seja abalada.

É preciso acreditar pois, somente pelo regime democrático é possível construir um novo Brasil, frase tão exclamada e pouco praticada por nós brasileiros. A manutenção da democracia é tarefa diária de cada um e, para que ela se torne uma forte coluna na opinião pública, só há uma receita mágica: tornar a participação política uma regra – e não uma exceção que só aparece a cada biênio quando acontecem as eleições.

Se você quiser falar comigo envie um e-mail para contato@tiagovalenciano.com

 

Rejeição, o tabu do tabuleiro político

A última pesquisa divulgada semana passada pelo Instituto Paraná Pesquisas e devidamente registrada no TSE mostra-nos o maior medo em relação às eleições de 2018 dos pré-candidatos à Presidência da República: o índice de rejeição. Nas diversas simulações efetuadas, o que nos chama a atenção são os altos pontos atingidos pelos candidatos quando a pergunta é “em quem você não votaria de jeito nenhum”.

Fernando Haddad, do PT, ultrapassa a casa dos 66% daqueles que não votaria de jeito nenhum. Geraldo Alckmin (PSDB) chega a 61%, enquanto Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (REDE) passam dos 50%. Joaquim Barbosa (PSB) é o “menos rejeitado”, com 45%. De todos os candidatos, confirmamos a antiga preocupação com a rejeição, isto é, a possibilidade quase que nula de alguém votar em um determinado candidato.

A rejeição é o tabu criado no tabuleiro político. Dali em diante nos parece que ninguém mais cresce. É quase que como um pito da mãe, uma carraspana do pai, um não é não da namorada ou esposa. E você, ouvinte, será que também nos rejeita ou não quer saber somente dos pré-candidatos à Presidência da República?

Acesse a pesquisa: http://www.paranapesquisas.com.br/wp-content/uploads/2018/05/BR_Mai18-M%C3%ADdia.pdf

A democracia distante

O semanário inglês “The Economist” organiza e divulga desde 2006 um ranking dos países sobre a prática democrática. Conhecido como o “índice da democracia”, este levantamento considera cinco pontos essenciais para que o regime democrático funcione nos 167 países pesquisados: o processo eleitoral e pluralismo; as liberdades civis; o funcionamento do governo; a participação política e a cultura política.

Desde então, o Brasil é considerado como uma democracia imperfeita, a segunda categoria geral do ranking, que ainda contempla acima a democracia plena e, abaixo, os regimes híbridos e os autoritários. Em linhas gerais, podemos até considerar o desempenho nacional como satisfatório, considerando que desde 1989 experimentamos eleições perenes, com a substituição de lideranças no poder. Entretanto, é preciso avançar.

Nesta edição, divulgada em janeiro de 2018, o Brasil atingiu sua pior nota geral histórica (6,86, em uma escala de zero a dez), número distante dos 7,38 de 2014 e de 2008, quando obteve o melhor desempenho. Todavia, o país subiu duas posições no ranking, ocupando a 49ª posição – muito porque 88 países tiveram queda na avaliação.

O destaque positivo brasileiro se dá pelo bom processo eleitoral e pluralismo, além das liberdades civis. As piores notas são quanto ao funcionamento do governo e, principalmente, a nota cinco em participação política. É justamente neste ponto que precisamos melhorar.

O brasileiro, conforme apontado, pouco participa politicamente. Com o fenômeno das redes sociais, criamos um cidadão um pouco mais ativo, buscando compreender a política e tomando partido de candidatos e de conjunturas, especialmente na esfera nacional. Ainda assim, é preciso investir em dois pontos para que o Brasil avance nestes indicadores: maior conhecimento do sistema político (eleitoral e partidário, por conseguinte) e participação política efetiva, com mais mulheres disputando eleições, cidadãos engajados nas discussões políticas municipais, nas ótimas experiências dos conselhos gestores e interesse no debate político, compreendendo ideologias e posicionamentos de candidatos e partidos.

Somente por intermédio do que chamamos de “educação política” é que nós brasileiros experimentaremos indícios de uma democracia plena. Para isto, o dever de casa perpassa pelos políticos, que precisam melhorar o exemplo de boa conduta na máquina pública e pela população, que necessita refutar pequenas corrupções.

A busca por uma “democracia perfeita” deve ser nosso principal objetivo quando falamos sobre política. Nesta longa trajetória, a participação e o engajamento em causas e projetos deve ser apoiada, com a finalidade de sempre lembrar a nossa grande missão: a responsabilidade sobre a coisa pública em uma democracia é de todos nós.

Por quê Luciano Huck incomoda tanto?

“Porque ele é o candidato à Presidência da República da Rede Globo de Televisão”. Mais do que uma simples afirmação, dotada de posicionamento político evidente, é preciso avaliar os motivos pelos quais um apresentador de televisão tem gerado tantas discussões na internet por ser cogitado a disputar uma vaga para ser candidato à Presidência da República em outubro próximo.

Longe do pioneirismo na disputa eleitoral, a categoria “apresentadores de televisão” sempre chamou a atenção do campo da política – e não é de hoje. Prova viva, Celso Russomanno (PRB-SP) é Deputado Federal pelo quinto mandato, sendo inclusive candidato à Prefeitura do maior município brasileiro. Outros nomes despontaram no eixo mídia-política, como Tiririca (PR-SP) e seus milhões de votos legislativos. Silvio Santos, do SBT, foi candidato por um curto período em 1989. Sem falar nos inúmeros casos nas Câmara Municipais e Prefeituras do Brasil.

Entretanto, a envergadura da disputa presidencial requer maiores cuidados e, boa parte do eleitorado tem rejeitado veementemente a candidatura de Huck. Ao contrário de outros pré-candidatos, o primeiro aspecto a ser destacado é o próprio conhecimento da vida pública do apresentador, bem como suas intenções. Formado em Direito pela USP, em um dos cursos mais tradicionais do país, oriundo de uma família de classe média-alta paulistana, fez carreira em agências de publicidade antes de se tornar conhecido na televisão. Na Band e, desde 2000 na Rede Globo, a especialidade de Huck é comunicar com entretenimento, com uma dose de questões sociais em seus quadros, que tem como alvo mexer com a emoção das pessoas. Casado com a também apresentadora Angélica, o casal é um dos mais queridos do público, dominando as tardes de sábado da Globo.

Ou seja, a biografia de Huck, enquanto trajetória social, reflete seu propósito: um integrante de família abastada da tradicional elite paulistana, apresentando há anos um semanário de entretenimento, com a facilidade de conversar com as pessoas pelo meio de comunicação mais universal do Brasil: a televisão. Das 67 milhões de residências no Brasil, 65 milhões tem pelo menos um aparelho de televisão. Este número é inclusive maior que o de geladeiras. Considerando a supremacia da audiência da Globo no país, que domina as telenovelas e a transmissão do futebol, esporte mais popular do Brasil, a política parece ser mais uma “diversificação de negócios” do grupo Marinho.

A sirene de alerta foi acendida quando os principais analistas políticos do Brasil enxergam um caminho para o crescimento de uma candidatura “de centro” no espectro eleitoral, polarizado atualmente por Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). Huck poderia ocupar esta lacuna: adiantadamente é uma figura conhecida (só perde neste quesito para o ex-Presidente Lula), tem a audiência semanal e facilmente “entra na casa das pessoas”, dificuldade que os demais candidatos enfrentam – disputando a atenção dos eleitores, sobretudo, na internet. Por outro lado, Luciano seria uma espécie de “outsider”, o que não partilha do cotidiano da política, algo que poderá ser relevante no pleito vindouro.

O discurso de ódio contra a candidatura de Luciano Huck nada acrescenta no debate político. Dizer tudo o que já sabemos sobre ele é enfatizar um enredo conhecido há mais de 20 anos e que terá as consequências outrora esperadas. Tentar barrar a candidatura de um cidadão me parece pouco democrático, virtude esta levantada por todos os demais postulantes e seus respectivos simpatizantes. Conviver, apontando as diferenças entre os “presidenciáveis” talvez seja a melhor saída. A lata velha da política brasileira precisará dialogar com o potencial de Luciano Huck.

O pós-moderno na política

Clap, Clap, Clap. Somente palmas. Já que por aqui não dá pra inserir os famosos emojis, recorremos a uma onomatopeia para exprimir as palmas. É isto que os políticos, em geral, buscam: palmas. Mais do que vaias ou ofensas, o interesse no prestígio constante e no reconhecimento (pelo eleitorado e pela mídia, sobretudo), refletem há anos a prática política no Brasil. “Um político deve sempre buscar palmas de sua plateia”, diria qualquer consultor na área. A claque deve estar sempre posicionada para tal.

Chegamos em um momento que as palmas deveriam ser deixadas de lado. O Brasil precisa atravessar por revoluções (mais do que uma simples reforma em que se mudam os móveis e pintam as paredes). A insatisfação com o cenário político nacional tem deixado a claque cada vez menor e a fúria a cada dia maior. Entretanto, isto parece que não ocorre no Poder Legislativo.

Observe a votação de qualquer projeto polêmico, em que a Câmara dos Deputados irá ampliar ou garantir direitos, beneficiar uma classe, por exemplo. Se há um grupo de pressão no parlamento, até mesmo àqueles que não defendem tal segmento solicitam a palavra para discursar, apenas buscando o imediato reconhecimento com muitos “claps”. Quanto mais inflamado – mesmo que não se conheça determinado assunto, mais palmas. É o velho jogo do “finge que me ama, que eu finjo que acredito”.

Stuart Hall, autor que aprecio, disse em “A identidade cultural na pós-modernidade” que vivemos na era do sujeito pós-moderno, aquele fluido, que assume uma diversidade de identidades culturais, pronto para se adaptar de acordo com cada situação. Se um Deputado Federal é contra o sindicato em determinada votação, por exemplo, ele na hora está apto a defendê-lo; se ele é a favor, se aproveita para garantir mais palmas, em um discurso inflamado.

Se isto vai se transformar em votos só o tempo dirá. A advertência que deixo é que os tempos estão mudando. A perda da ideologia na sociedade pós-moderna/globalizada fará com que pagamos um alto preço. A popularidade virtual via redes sociais ou pessoal via palmas pode deixar de existir (assim esperamos). O jogo do “engana-engana” só acaba quando, de fato, nos preocuparmos em conhecer quem nos representa, na velha, manjada, porém sempre atual questão da ciência política: afinal, quem governa?

Referência bibliográfica indicada:

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10a ed. Rio de janeiro: dp&a; 2005.

Os deputados despachantes

Delegado Waldir, o deputado que rejeitou as emendas em troca de um voto na CCJ da Câmara.

Todos sabem que sou um ferrenho defensor do Poder Legislativo. É lá que os grandes debates nacionais devem (ou pelo menos deveriam) acontecer. Questões em que todos os presidenciáveis um dia respondem (como casamento de pessoas do mesmo sexo, descriminalização da maconha, liberação do aborto e afins) seriam, em nossa concepção, alvo de embates legislativos, com Deputados e Senadores dissertando sobre.

No entanto, o recente episódio da liberação de mais de 1 bilhão de reais em emendas parlamentares pelo Presidente Michel Temer (PMDB) reflete a realidade do papel exercido pelos Deputados Federais no Brasil. A atuação de nossos deputados se reduziu a apenas despachar emendas para suas bases eleitorais. Não mais que “despachantes de luxo”, uma espécie de promiscuidade do Legislativo se perpetua no clientelismo da política nacional: o deputado “despacha” verbas, entrega os seus frutos e colhe os resultados nas eleições.

A lógica do Poder Legislativo está, infelizmente, invertida. Se os valores destas verbas são fornecidos pelo Poder Executivo em forma de políticas públicas, debatidas e deliberadas pela sociedade, por qual motivo há a personificação por Deputados Federais em forma de emendas? Ora, pelo simples fato de que é mais fácil para o eleitor comum observar o concreto (uma obra, um equipamento entregue, por exemplo) do que um debate no plano das ideias, que pode alimentar algum projeto futuro.

Imediatista em um espaço de tempo de 4 anos, o eleitor também auxilia no sustento desta perversa lógica. Por estas e outras razões o Poder Legislativo anda em descrédito perante a sociedade, que não se lembra em quem votou, não cobra e não fiscaliza a atuação parlamentar, mas também se deixa enganar pelo sistema clientelista do Deputado despachante.

Em um tempo de redes sociais e discussão política efervescente na internet, está na hora de fato discutirmos o papel dos poderes instituídos e suas respectivas funções. Além disso, é preciso difundir para o eleitorado o que cada política deve (ou deveria) fazer e para qual cargo ele foi eleito. Em um clima de mudança permanente dos quadros atuais, 2018 pode ser um bom momento para levantarmos estes e outros debates, despachando àqueles que não estão dispostos a cumprir o seu papel.