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Archive for Outubro, 2008

As visões sobre o multiculturalismo

 

            O conceito de cultura, derivado do latim, pressupõe o cultivo a algo. Cultivar nada mais é do que repassar, através de gerações, um conhecimento, crença ou tradição de respectiva comunidade. Diante de uma determinada cultura, aprendemos aspectos acerca de costumes locais, ações realizadas para um determinado fim e assim até mesmo nós estabelecemos um panorama para a criação de identidade de certo grupo. Com a relação existente entre vários grupos ou comunidades, há a incidência de um multiculturalismo, ou seja, várias culturas presentes em campo determinado. Adiante, iremos tratar os aspectos do multiculturalismo: do eurocentrismo em que a cultura é tratada como homogeneizante, penetrando pelo conhecimento disciplinar prejudicial, a necessidade dos estudos culturais, os significados deste multiculturalismo e o conceito de pós-colonialismo.

            Immanuel Wallerstein taxa a ciência social como eurocêntrica no decorrer de sua história. Esta afirmação é senhora no capítulo décimo primeiro do livro “O fim do mundo como concebemos: Ciência social para o século XXI”, quando aborda a questão do eurocentrismo. Segundo o autor, cinco são as “acusações” atestadoras de tal fator. A primeira “acusação” parte do pressuposto que a historiografia tem se pautado nas conquistas dos europeus no mundo moderno. Sob qualquer olhar, as inovações propostas pela Europa sempre são boas. Este argumento sustenta também as conquistas, o domínio do capital e, claro, do saber dos europeus perante aos demais. Ou seja, partir (e pensar) do pensamento europeu sempre é bom. Assim, surge a segunda “acusação”, no tocante da produção européia ser considerada universal (universalismo). Tal provincianismo é inerente à ciência social, visto deste “padrão europeu universal”, assumido nos passos da história. O terceiro postulado é a civilização, opondo ao barbarismo ou ao primitivismo os demais. Desse modo, quem não é da Europa pode ser tratado como “nativo”, pertencente a outro grupo ou clã, não dotado dos mesmos valores da educação dominante. O orientalismo é o ponto chave da quarta “acusação”, pautando a discussão em torno de uma disputa entre os interesses de ambos. Por fim, a última “acusação” surge pelo progresso, inspirado no iluminismo e desenvolvimento de todas as etapas.

            Ainda nesta linha de pensamento, Edward Said afirma que a relação entre o colonizador e o colonizado é intrigante, vez que o colonizado assume posição secundária e sua representação pode não ser a exata, da maneira como era, já que o colonizador traduz o colonizado, evidenciando a visão do seu trabalho de campo. O colonizado assim é definido:

 “Pobreza, dependência, subdesenvolvimento, variadas patologias de poder e corrupção e, por outro lado, realizações notáveis de guerra, na alfabetização, no desenvolvimento econômico: essa mistura de características assinalava os povos colonizados que se haviam libertado em um nível, mas permaneciam vítimas de seu passado em outro” (Said, 2003: 115).

             Esta passagem de “Reflexões sobre o exílio” nos remete ao paradoxo do colonizado: ora se desenvolve, ora é refém do colonizador (europeu?). O antropólogo não realiza mais o trabalho de campo como outrora. Alguns fatores, como por exemplo a globalização, impedem uma definição apenas com o olhar do antropólogo-colonizador de um determinado interlocutor, cabendo bem mais ponderar o que de fato será exposto. A crítica realizada por Said se encontra justamente nessa posição, em que cobra da antropologia um trabalho fiel, ilustrando com vigor o lugar do colonizado, até mesmo a defesa de divulgação ampla de alguns posicionamentos.

             Ainda neste debate sobre a importância da disseminação das culturas por intermédio do multiculturalismo, Henry A. Giroux critica o conhecimento disciplinar, contrapondo-se então aos vários especialistas produzidos. Segundo Giroux:

 “A sabedoria convencional dos acadêmicos é deixar que os membros de outros departamentos façam o que quer que seja seu trabalho de maneira que quiserem – contanto que este direito lhes seja garantido. Como conseqüência destes desenvolvimentos, o estudo da cultura é conduzido em fragmentos” (Giroux, 1997: 179).

             Assim, dividindo-se as disciplinas, o saber fica restrito numa relação pesquisador/especialidade, especialidade/pesquisador, uma vida de mão dupla em que a diversidade não é explorada.

            Os estudos sobre a cultura tomam grande importância para Giroux. Considerar algo melhor ou pior, comparado com outro, por exemplo, é perigoso, vez que toda cultura possui sua importância e deveria ser exposta de modo relacional, não competitivo. Logo, qualquer projeto de hierarquizar culturas deve ser abolido, sendo alguma cultura melhor, ou determinada pela política, ética, cessando que os estudos culturais ofereçam o importante de cada área. Por conseguinte, estes estudos produzem nos pesquisadores “uma análise continuada de suas próprias existências” (Giroux, 1997, p. 185).

            O papel do intelectual, ainda para Giroux, deveria ser o do “intelectual transformador”, no sentido de proporcionar “liderança moral, política e pedagógica”, ou seja, ao invés da condição de líder intelectual, repolitizar o conhecimento e ampliá-lo não apenas para os membros de uma mesma área de atuação, mas também para os demais pesquisadores interessados em compreender os diversos tipos de conhecimento. Assim, este “intelectual transformador” luta contra o status quo e as normas estabelecidas, aumentando os horizontes das pesquisas e o espaço de ação cultural.

            Stuart Hall define alguns tipos de multiculturalismo: conservador, liberal, pluralista, comercial, corporativo e crítico. O multiculturalismo conservador pressupõe a assimilação da diferença às tradições e costumes da maioria, aceitando-as e respeitando-as. O liberal insere a minoria nos padrões da maioria, com as diferenças toleradas no campo privado, sem reconhecê-lo na esfera pública. Já o pluralista pondera que cada grupo deve viver em separado, ou seja, cada qual com sua identidade, não se relacionando com os demais. O multiculturalismo comercial argumenta que as diferenças surgem em nichos de mercado, dada a importância de fornecer os desejos destes nichos. Atender aos anseios das minorias para estancá-las é a missão do multiculturalismo corporativo. Este estancamento supõe o domínio da maioria. E, o modelo defendido por Hall (crítico), interroga as relações de poder e as desigualdades entre os grupos. Assim, qual multiculturalismo seguir? Ou então devemos respeitar todas estes rostos multiculturais? Hall indaga:

 “Na verdade, o “multiculturalismo” não é uma única doutrina, não caracteriza uma estratégia política e não representa um estado de coisas já alcançado. Não é uma força disfarçada de endossar algum estado ideal ou utópico. Descreve uma série de processos e estratégias políticas sempre inacabados.” (Hall, 2003: p. 52-53).

             “O devido reconhecimento não é uma mera cortesia que devemos conceder às pessoas. É uma necessidade humana vital” (Taylor, p. 242). Deste modo, Charles Taylor defende a “política do reconhecimento”, como molde de nossa identidade, com o reconhecimento errôneo sendo até mesmo prejudicial à construção desta identidade pessoal. Neste raciocínio, o autor valoriza a originalidade e a opinião de cada pessoa, salientando que cada um “sempre tem algo a dizer”, em certa medida, enfatizando a subjetividade e o indivíduo, o reconhecendo nos múltiplos níveis. O reconhecimento, então, ganhou destaque pelo diálogo realizado consigo mesmo com outros significativos e também no plano público, com esta política realizando o papel universalista dos indivíduos. Reconhecer nada mais é do que propiciar peso às querelas do multiculturalismo.

            Com os debates ocorrendo em torno de o grandioso centro gerar sua periferia, dividindo o mundo em duas partes com a existência do centro delimitando o que é periférico, Thomas Bonnici sugere dar voz aos colonizados, ressaltando as diferenças das colônias com os impérios no emergir da personalidade nacional. Ou seja, pós-colonialismo para Bonnici é buscar alternativas para o discurso do “império”, reinterpretando-o e garantir voz ao colonizado oprimido, na ciência, história e literatura nacionais, um processo enfático do agora independente.

            Estas diversas anotações sobre o multiculturalismo apresentam uma face deveras salutar para discuti-lo. Afastando o eurocentrismo das ciências sociais, combatido por Wallerstein e também as impressões do colonizador acerca dos colonizados, como dito por Said, o tema multicultural deve ser anotado, observando que há sim a necessidade de respeitar e principalmente dialogar, não criando pirâmides hierárquicas das culturas e disciplinando as culturas como partições independentes. A ótica de estudo multicultural deve transcender os laços do local, buscando em novas culturas a diferença, importante para a formação intelectual de cada um. Assim, não só haverá o reconhecimento das diferenças de cultura, mas um reconhecimento valorizado das vozes outrora sufocadas por culturas aqui entendidas como dominantes.

 Bibliografia

 BONNICI, Thomas. Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2. ed. Maringá: EDUEM, 2005.

GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: Rumo a uma aprendizagem crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Editora Schwarz, 2003.

TAYLOR, Charles. Argumentos Filosóficos. São Paulo: Edições Loyola.

WALLERSTEIN, Immanuel. O fim do mundo como concebemos: Ciência Social para o século XXI. Editora Revan.          

Eleições 2008 e a “onda Barros”

Outubro 14, 2008 Tiago Valenciano 1 comentário

Eleições, a “Festa da democracia”. Eleições, a “A estratégia da inteligência”. Diferente do que os comentaristas políticos dizem, as eleições estão muito mais aliadas à estratégia do que festa para um personagem já analisado por mim: Ricardo Barros. O trampolim político para as eleições presidenciais e estaduais em 2010 são as estas eleições municipais de 2008, realizadas em 05 de Outubro. Assim, diante dos expressivos resultados obtidos no último pleito, questiono: está surgindo um novo tipo de “mito” ou “personagem político” no Paraná, comparado à figura de ACM na Bahia, chamado Ricardo Barros, fenômeno este que leva a alcunha de “Barrismo”?

 Comparado a 2004, o Partido Progressista, sob a batuta de Ricardo Barros, elegeu o mesmo número de prefeitos no Paraná, 38, mas com uma ressalva: hoje, é o terceiro maior detentor de prefeituras, atrás de PSDB (39) e PMDB (138). Nos legislativos municipais, o PP elegeu 314 parlamentares, atrás de PDT (353), PSDB (455) e PMDB (749). Em números comparativos, podemos considerar hoje o PP como a terceira maior força política do Estado, frutos colhidos após o intenso trabalho de visitas de Ricardo aos diretórios municipais e os encontros regionais do partido, que ocorrem desde o princípio do ano.

 Dos prefeitos eleitos, as cidades com maior relevância foram Guairá, Cornélio Procópio, Jandaia do Sul (Ex-Deputado Federal Borba), Mandaguari, Sarandi, Toledo e Guarapuava. Das dez maiores cidades do Paraná, o PP reelegeu Silvio Barros em Maringá, com 104 mil votos e Fernando Ribas Carli em Guarapuava; está no segundo turno com Belinatti em Londrina; compõe a coalizão de partidos em Curitiba, Foz do Iguaçu, Colombo e Paranaguá e apóia o candidato Sandro Alex do PPS em Ponta Grossa. Assim, perdeu apenas em Cascavel e São José dos Pinhais.

 Este desempenho eleitoral significativo permitiu ao Deputado Ricardo Barros estabelecer raízes em pontos estratégicos do Estado, fincando o poder sob a legitimidade popular em Maringá, participando do governo em Foz do Iguaçu, Cascavel, Paranaguá e Curitiba e disputando o segundo turno em Londrina. Tal aval das urnas credencia Ricardo Barros a disputar as eleições para o Senado em 2010, abrindo espaço no grupo partidário composto por PDT/PSDB/DEM/PSDB/PP. Destes, apenas o DEM já conta com pré-candidato ao Senado, com o atual Deputado Federal e Presidente da sigla, Abelardo Lupion.

 Pelo exposto até então, grande é o sucesso da “Família Barros” nas urnas: Silvio Barros, prefeito de Maringá 1973-1976; Ricardo Barros (filho de Silvio), prefeito de Maringá 1988-1992; Silvio Magalhães Barros II (filho de Silvio), prefeito de Maringá 2004-2008 e 2009-2012; Cida Borghetti, Deputada Estadual e Ricardo Barros, atual Deputado Federal, Presidente Estadual do PP e Vice-Líder do Governo. Ainda assim, Juliano Borghetti, cunhado de Ricardo, foi eleito Vereador em Curitiba.

 Este panorama eleitoral e os resultados expostos enfatizam minha hipótese: o nascimento do “Barrismo” no Paraná. Antes, um poder local/regional; Agora, força Estadual; Antes, articulações políticas restritas à Maringá e aos atores do Congresso Nacional; Agora, eleger prefeitos em locais estratégicos passou a ser meta. Diferentemente do que muitos disseram, não estou “puxando o saco” de Ricardo. Os números falam por si. Apenas analiso a movimentação das peças do xadrez político, este que, se não reagir às jogadas de Ricardo, pode muito em breve levar um xeque-mate de um grande jogador.

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