
A articulação, conexão existente entre fatores ou ações, é um instrumento primordial no universo da política. Quem normalmente a realiza é porque possui a habilidade de intermediar as negociações, seja para adquirir verbas públicas para um determinado fim, seja para unir forças políticas em torno de um mesmo ideal. Em Maringá, há um personagem que é citado em qualquer discussão acerca da política, de articulações partidárias até os bancos das universidades: Ricardo José Magalhães Barros. Neste ensaio, nosso objetivo é traçar o perfil político do Deputado, delimitar suas “bases eleitorais”, abordar brevemente seus projetos realizados na Prefeitura de Maringá entre 1988 e 1992 e na Câmara dos Deputados (1994-2010) e analisar entrevista concedida pelo mesmo em janeiro de 2008.
Ricardo José Magalhães Barros, conhecido por Ricardo Barros, RB, nasceu dia 15 de Novembro de 1959, em pleno governo de Juscelino Kubitschek, curiosamente 70 anos depois da Proclamação da República. Filho do ex-prefeito Silvio Magalhães Barros, seguiu a carreira política vitoriosa do pai, este Vereador, Deputado Estadual, Deputado Federal e Prefeito da “Cidade Canção”. Graduado em Engenharia Civil pela UEM (1977-1981), o ingresso de Ricardo no cenário político deu-se em 1988. No ano da promulgação da “Constituição Cidadã” pela Câmara dos Deputados, Barros se candidata à Prefeito de Maringá, com 29 anos na época.
Em uma eleição a qual não era o favorito, Ricardo venceu Ademar Schiavone e João Preis, candidato do então prefeito Said Ferreira, dotado de uma campanha em que o marketing político dominou. Com um programa bem elaborado, um candidato jovem, “não viciado” na política e sempre portando um sorriso e vendendo a imagem do “bom moço”, Ricardo Barros superou a tudo e a todos, arrancando dos cerca de 2% iniciais nas intenções de voto para vencer e subir as escadarias do paço municipal. Naquela oportunidade, o partido escolhido para a disputa foi o PFL, atual Democratas, o qual havia sido fundado no município. Após tentativas frustradas com Antonio Ueno e o radialista Lindolfo Júnior, tal grupo comandante do PFL o deixou, passando a figurar o chamado “Grupo Renovação”, composto pelo líder principal: Ricardo Barros. Era o homem ideal para disputar a prefeitura em 1988. Com ele, alguns componentes conhecidos da política local vieram juntos, como Willy Taguchi, Paulo Magalhães e Miro Falkemback. O Presidente do PFL em 1987 (com a chegada de tal grupo) era Dirceu Sato. O partido foi sustentáculo para a candidatura de Ricardo. Com eleições vencidas e dois vereadores eleitos, o PFL ganhava força na cidade. Todavia, disputas internas se acirravam. Ricardo não disputou a reeleição. Esta decisão abriu espaço para Miro Falkemback disputar a prefeitura de Maringá em 1992. Com a derrota de Miro e a candidatura para Deputado Estadual em 1994 (nova derrota de Falkemback), o grupo estava desgastado e a impressão de que o mesmo era utilizado como base para os vôos políticos de Ricardo Barros agravaram a relação. Ricardo partiu em 1997, deixando um PFL fraco e que só contou com expressão política quando da candidatura do irmão Silvio Barros II para a Prefeitura em 1996 e principalmente da vinda do Deputado Estadual Divanir Braz Palma para o mesmo.
Durante o mandato como Prefeito, Ricardo enfrentou o chamado “grupo dos oito” com o “grupo dos treze” no legislativo municipal. O primeiro, contra a administração Barros; o segundo, sua base de apoio. Esta manobra era necessária, vez que durante o pleito de 1988, como exposto acima, o PFL elegeu apenas dois vereadores. Evidenciando tal articulação, Ricardo desenvolveu no período de prefeitura sua fama de “principal articulador político de Maringá”. Nos trabalhos da prefeitura, os destaques ficam por conta do início da obra da Câmara de Vereadores; O projeto de desenvolvimento do “Novo Centro”, como a construção do Terminal Urbano; Os teatros “Barracão” e “Reviver”; e a implantação do Conselho Tutelar de Maringá.
Encerrada sua participação no executivo, experiência esta única na carreira política de Ricardo Barros, alcançar o legislativo era o próximo passo. Em 1994, ainda filiado no PFL, Barros é eleito Deputado Federal, com 54.049 votos, oitavo colocado geral e terceiro colocado do partido, este que venceu com sete parlamentares. Eleger-se Deputado Federal é o primeiro passo para sua trajetória no congresso nacional. O parlamento, assembléia dos representantes eleitos pelo povo, definitivamente é o lugar mais apropriado para Ricardo: é nele em que os ajustes e negociações políticas são realizados. Os debates, a arte do convencimento (importante no campo político), no parlamento em que se joga o jogo, jogo o qual um simples vacilo cometido pode acarretar prejuízos irreparáveis. Ricardo adora esse jogo.
Na Câmara dos Deputados, Ricardo foi eleito por mais de uma vez um dos “Cabeças do Congresso”, prêmio oferecido pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP). Os projetos de relevância se caracterizam nas mais diversas áreas: Luta contra o câncer de mama; Criação do Seguro Obrigatório para Direitos Trabalhistas; Dispositivos na CLT; Obtenção da Carteira Nacional de Habilitação para menores de 16 anos; e vários projetos que demandam verbas públicas, por exemplo, as obras da vila olímpica de Maringá e também o rebaixamento da linha férrea no “Novo Centro”. Curiosamente, há maior destaque em seu site pessoal (www.ricardobarros.com.br) para as obras nos tempos de prefeitura, com uma seção específica para o período.
No ano de 1998, uma nova campanha estava por vir. Ricardo Barros, candidato à reeleição, venceu com 68.919 votos. Foi o décimo quarto colocado, posição bem inferior ao patamar alcançado quatro anos antes. Quiçá, este desempenho seja pela troca de legenda, do PFL pro PP, ex-PPB. Nele, obteve o quarto lugar. A partir de então, iniciaremos o debate sobre as “bases eleitorais” do Deputado. Na tabela abaixo, verifica-se o princípio da aquisição de “identidade eleitoral” de Ricardo. Com base fixada em Maringá, 49,3% dos votos foram obtidos ali, quase a metade de todo o eleitorado. Outras cidades no entorno de Maringá também aparecem bem colocadas, como Marialva, Sarandi, Paiçandu e Mandaguaçu. Pelo fato de nem se localizar próxima a Maringá, a surpresa é Pitanga, município localizado no Centro-sul do Estado, com aproximadamente 34 mil habitantes. Lá, Ricardo adquiriu 3.469 votos, 5% da soma total de seus votos. Em representação municipal, Ricardo foi votado em 285 municípios do Estado.

A tendência do aumento do eleitorado mais uma vez é ratificada em 2002. 118.036 votos foram recebidos pelo Deputado, número este 42% superior aos votos somados na eleição anterior. Desta vez, Ricardo foi o sexto lugar geral, o segundo colocado do Partido Progressista. Até então, há o fator de ter se sobressaído partidariamente: vice-líder do partido (1997-1999) e vice-líder do governo (1999-2002) e líder em 2002. Tais funções desempenhadas no congresso exprimem o prestígio alcançado na classe política. Maringá segue firme na ponta, consolidando-se como reduto eleitoral de Barros, agora com 40,4% dos votos obtidos. Há, sobretudo no resultado desta disputa eleitoral, a aproximação dos votos logrados nas demais cidades com o pólo eleitoral (Maringá). Até a quarta colocação, figuram na tabela abaixo cidades próximas à “Cidade Canção”: Cianorte (2°); Sarandi (3°); Marialva (4°), seguindo até ao 10° lugar (Floresta). Outra vez, Pitanga surge em boa colocação, uma “diferença” nos demais oito municípios que pertencem à região de Maringá. Neste ano, os votos do Deputado estiveram presentes em 343 dos 399 municípios paranaenses.

Caindo para a sétima colocação geral em 2006, adquirindo 130.855 votos, recorde de votação na história do Deputado, Ricardo agora preside o Diretório Estadual do PP. Atualmente, mesmo colaborando na campanha para presidência de Geraldo Alckmin (PSDB), é vice-líder do governo Lula (PT), já que o PP é um dos partidos de sustentabilidade governamental. Ricardo foi o mais votado do partido no Paraná, solidificando o papel de “maior liderança política” do PP no Estado. Ainda ao comprovar o papel de Maringá como “base eleitoral” (35% dos votos), tal aspecto se alterou desde o primeiro mapeamento, realizado em 1998. Verifica-se, portanto, a intenção de disseminar os votos de Ricardo por todo o espaço geográfico do Paraná, ampliando as ações políticas e, consequentemente, os votos do Deputado. Uma faceta semelhante à de 1998 é a diversidade dos dez municípios em que Ricardo Barros obteve a maior votação. Dissemelhantemente de 2002, não há grande parte das melhores colocadas que se situam na região de Maringá, apresentando assim a variedade da votação de Barros. Tal semblante pode caracterizar um futuro político para o mesmo, almejando disputar cargos com maiores proporções (sonda-se a intenção de Ricardo Barros candidatar-se ao Senado Federal em 2010). Este fato justifica-se pelos votos alcançados em 336 municípios, 7 a menos que em 2002, mas que significam 85% dos municípios do Paraná.

Ainda insistindo na tese de que o reduto eleitoral de Ricardo Barros é Maringá e região, o gráfico abaixo mostra o comparativo entre os votos obtidos em Maringá e nos municípios que compõem a atual COMEM (Coordenadoria da Região Metropolitana de Maringá), nos processos eletivos de 1998, 2002 e 2006, com os votos nos demais municípios do Estado. Em 1998, 64% dos votos foram obtidos na Região Metropolitana de Maringá, maior patamar entre os três analisados. Já em 2002, mesmo figurando na COMEM sete das dez cidades onde Ricardo mais recebeu votos, a concentração eleitoral na região caiu para 58%, índice este semelhante ao de 2006 (57%). Este comportamento remete à idéia de descentralização eleitoral de Ricardo, a fim de amplificar os horizontes do político.

Figura 1: Comparativo de votos obtidos pelo Deputado Ricardo Barros (PP) na Região Metropolitana de Maringá com os demais municípios do Paraná.
Neste gráfico, a evolução da colocação geral no Paraná é demonstrada. Exceto o pleito de 1998, certa colocação média (6° lugar) é mantida, ótima colocação, considerando que a bancada de Deputados Federais do Paraná é composta por 30 membros. Em relação à competição interna, Ricardo atingiu o topo na última eleição. Todavia, sempre esteve bem situado perante os demais companheiros partidários.

Figura 2: Colocação do Deputado Ricardo Barros (PP) em relação aos Deputados Federais do Paraná e os Deputados de seu partido.
Eram 14h do dia 16 de Janeiro de 2008. Inesperadamente, recebo uma ligação da secretária do Deputado Ricardo Barros, averiguando a possibilidade de realizar a entrevista naquele dia, 17h30, em seu escritório político. Confesso que havia perdido as esperanças de conversar com o Deputado, o então citado como “articulador” político-mor de Maringá, aquele que angariou apoio em 2006 de onze dos quinze vereadores locais. Prontamente, atendi ao pedido e me dirigi no horário marcado. Com atraso no vôo, iniciamos a entrevista aproximadamente 18h daquela quarta-feira.
Ricardo trajava uma camisa jeans, combinando com a calça, traje já observado em outros encontros públicos com o político. Em sua mesa de trabalho, poucos papéis e ao lado uma mesa com um computador, apenas à vista o teclado, mouse, monitor e uma webcam. Na tela, o Messenger aberto em uma solitária janela. A imagem de exibição: Peças de Xadrez. Exceto a foto do mesmo, não há imagem melhor para expressar o perfil de Ricardo, o verdadeiro “rei” do jogo político local, ditando as regras da disputa e causando preocupação em quem participa das partidas. Fui contemplado com um suco de abacaxi por um de seus assessores, naquele fim de tarde caloroso. Aqui, vale uma ressalva: a assessoria de Ricardo Barros é impecável, em todos os cuidados possíveis e na divisão do trabalho a ser executado. Racionalmente, cada assessor parece cuidar de determinado fim. No escritório, muitos quadros expondo prêmios e títulos, algumas fotos do tempo da prefeitura e uma foto do pai.
A primeira questão abordava o ingresso de Barros na política. Citou, então, o “grupo renovação” (não com essa termologia), mas sim o anseio de assumir a prefeitura em 1988. Este acontecimento de entrada na política deu-se por um tipo puro de dominação, segundo o alemão Max Weber: a dominação tradicional, aquela advinda por força da tradição de geração em geração. Filho de um ex-prefeito, Ricardo possuía sem dúvida o capital político para disputar – e vencer, sua primeira eleição.
Questionado sobre as experiências adquiridas no legislativo e no executivo, Barros cita alguns projetos (já destacados acima) e o último destaque é por conta do livro “De olho no dinheiro do Brasil”, lançado no final de 2007. Já acerca da definição política-ideológica e atuação partidária, na primeira Barros se declarou “liberal”. É um posicionamento até então esperado, visto que surgiu politicamente no Partido da Frente Liberal e esta auto-definição condiz com os projetos tramitados na Câmara dos Deputados. O relacionamento com a Câmara de Vereadores foi considerado bom, vez que já dito acima, em nossa definição, onze dos quinze Vereadores o apoiaram.
Por fim, a última questão delimitava sobre a influência, inspiração e um certo medo causado pelo nome “Ricardo Barros” na política local. Segundo o Deputado, tal comportamento é “folclore”. Cabe, então, salientar que o folclore é cultura popular, constituído por costumes, lendas e tradições. O “folclore” de Ricardo Barros existe. O costume de votar nele só aumentou, tal colocado acima. Dos 54.049 votos para as cifras de 130.855 votos, praticamente triplicando o eleitorado. Tradicionalmente, o legado iniciado com Silvio Magalhães Barros se perpetuou. Hoje, dois filhos foram prefeitos (Silvio Magalhães Barros II é o atual prefeito de Maringá, gestão 2004-2008). Este “legado” continua – e continuará também com a Deputada Estadual Cida Borghetti, esposa de Ricardo, eleita em 2002 e reeleita em 2006. A lenda sobrevive: pensar política em Maringá sem pensar em Ricardo Barros é não conhecer o folclore do jogo, direcionado em muitos aspectos por Ricardo e com as peças do xadrez sabiamente movimentadas.
Foto: www.ricardobarros.com.br