Múltiplas identidades, duas feiras
Ultimamente, escrevo muito sobre Maringá, uma das minhas grandes paixões. Comportamento da sociedade maringaense, ufanismo exaltando as qualidades da cidade, política local, enfim, vários assuntos que exploram o cotidiano dos habitantes da Cidade Verde. Todavia, algo realmente fascinante é a “Feira do Produtor”, sediada no estacionamento do Estádio Willie Davids, sempre nas tardes/noites de quarta e pelas manhãs de sábado.
Quem visita a feira observa várias pessoas transitando. Algumas com sacolas cheias de frutas, verduras, legumes; outras, vão apenas pra passear e curtir o visual; há também aquelas que vão para saborear o tradicional “pastel de feira” que, definitivamente, não tem o mesmo gosto de um pastel de pastelaria ou aquele feito pela vovó. Unindo diversos interesses na visita à feira, o assíduo freqüentador pouco/não pensa nas múltiplas identidades presentes em um só local.
Nas quartas, o público da feira é composto por estudantes, que acabaram de sair das aulas ou estão se dirigindo às mesmas. Há também grupos organizados que vão à feira apenas para saborear o pastel. A esquina da feira é um caso a parte: grupos punk, hip-hop, emo, cowboys, urbanos, enfim, uma junção de diversos estilos em torno do kula chamado barraca de pastel, apropriando um conceito do sistema de trocas dos melanésios, amplamente abordado por Marcel Mauss.
No sábado, uma colônia oriental imensa freqüenta a feira. Vários descendentes vão cedinho, bem no começo da mesma, talvez para aproveitarem os produtos fresquinhos. Afinal, nem só de jovens é composta a feira: ela possui seu público tradicional, caracterizado este pela dona de casa, a vovó e até mesmo pais de família ainda adeptos deste tipo de comércio. Não podemos nos esquecer dos “baladeiros’, que não perdem a oportunidade de visitá-la por volta das 5 da matina nos sábados.
A “Feira do Produtor” é traço característico de Maringá. Eu já não consigo pensar a cidade sem ela. Para mim, é mais que automático passear por ela nos dias que funciona. E, mesmo que queiram visitar outras feiras da cidade, duvido que encontrem várias identidades em duas feiras separadas por um intervalo de tempo de alguns dias, mantendo no espaço público um charme a mais para a já sedutora Cidade Canção.



